—Boa noite, Pélagué!

Ella vestia-se, e, para se dar coragem, murmurava:

—Esta agora! Virem de noite!... quando uma pessôa está na cama!...

O quarto parecia pequeno e por elle se espalhara um cheiro activo a graxa. Os dois guardas e o commissario de policia do bairro, Riskine, tiravam da estante os livros com ruido, e empilhavam-nos diante do official. Os outros davam pancadas nas paredes, olhavam para debaixo das cadeiras; um trepou com custo ao cano do fogão. O russo-menor e Vessoftchikof, unidos um ao outro, conservavam-se a um canto; o rosto bexigoso do segundo estava coberto de manchas vermelhas, e os seus olhinhos pardos não podiam desfitar-se do official. André retorcia o bigode, e quando Pélagué entrou no quarto, fez-lhe com a cabeça um movimento amigavel.

Para occultar o terror, mexia-se não de lado, como de costume, mas com o peito deitado para a frente, o que lhe dava um aspecto d’importancia affectada e risivel. Andava ruidosamente e as palpebras tremiam-lhe.

O official ia pegando rapidamente nos livros com as pontas dos dedos brancos e delgados, folheava-os, saccudia-os, e rapidamente atirava-os para o lado. Alguns volumes caíram no chão. Todos estavam callados; não se ouvia mais do que o respirar dos guardas esbofados, o tintilar das suas esporas; de quando em quando um d’elles perguntava:

—Já viste aqui?

Pélagué collocou-se junto do filho, encostada á parede; como elle, cruzou os braços no peito e quiz observar o official. As pernas vacillaram-lhe, um nevoeiro toldava-lhe a vista.

De subito, a voz de Vessoftchikof soltou-se concludente:

—Para que serve deitar os livros ao chão?