Dom Joaõ Afonso de Azambuja foy filho de Afonso Esteves Cavalleiro, Reposteiro Mòr delRey D. Pedro, e irmaõ de Joaõ Esteves o Privado. Foy feitura delRey D. Joaõ I. e da sua facçaõ, em quanto duraraõ as guerras de Castella. Em seu principio foy Conego de Evora, e Prior da Igreja de Monçaõ em Entre Douro, e Minho; e depois da Alcaçova de Santarem. ElRey D. Joaõ o mandou a Roma por duas vezes a buscar a sua dispensaçaõ para poder casar: a primeira, sendo ainda Prior da Alcaçova em companhia de D. Joaõ Bispo de Evora; e a segunda, sendo elle jà Bispo de Sylves, juntamente com Joaõ Rodrigues de Sà ao mesmo negocio. E naõ sómente neste particular, porèm em todas as cousas importantes, que naquelles tempos succederaõ, usou sempre ElRey muito de seu Conselho, e pessoa, por ser sogeito de muitas partes, e grande authoridade.
Foy Bispo do Algarve dous annos, do Porto sete, de Coimbra quatro, e ultimamente Arcebispo de Lisboa sete, e meyo: foy creado Cardeal de S. Pedro ad Vincula, do titulo de Santa Eudoxia em Roma por Joaõ XXIII. anno 1411. a 6. de Junho, e lhe ficou o Arcebispado em Encomenda. Fundou em Lisboa sendo Arcebispo, o Mosteiro do Salvador de Religiosas da Ordem de S. Domingos, a quem deixou por seu herdeiro, cujo padroado tem hoje os descendentes de Joaõ Esteves o Privado irmaõ do Cardeal, posto que usaõ appellido de Noronha. Morreo em Bruges, vindo de Roma para Portugal a 23. de Janeiro de 1415. mandou trazer seu corpo ao Mosteiro do Salvador, e nelle està sepultado na Capella Mòr da parte do Evangelho: os Padroeiros apresentaõ hum Vigario, e dous Capellaens, que dizem Missa quotidiana pelo Fundador; na sepultura tem este letreiro: Senhor D. Joaõ Arcebispo de Lisboa, e Cardeal de Roma, Baraõ sabedor, e virtuoso. Na Sè de Evora fazem hum Anniversario aos 24. de Janeiro por este Prelado, o qual lhe mandou dizer Alvaro Dias Pestana Conego da mesma Igreja, seu criado que foy, e feitura sua; no qual lugar do livro dos Anniversarios se refere muita parte desta relaçaõ; e diz que morreo a 22. de Janeiro de 1415. e que foy creado Cardeal a 3. de Junho de 1411.
§. VII.
O Cardeal D. Pedro da Fonseca.
Dom Pedro da Fonseca foy filho de Pedro Rodrigues da Fonseca Alcaide Mòr de Olivença, e de Ines Botelha parenta da Rainha Dona Leonor de Portugal; por occasiaõ do qual parentesco seguio Pedro Rodrigues as partes da Rainha Dona Beatriz, e D. João o I. de Castella, para onde se foy, e là o fez ElRey seu Guarda Mór, deixando elle em Portugal muitas Villas, e lugares, de que era Senhor. Quando se Pedro Rodrigues foy de Portugal, jà levava a Pedro da Fonseca seu filho, ainda que pequeno; e assim posto que se criou em Castella, lhe chama sempre Onufrio Portugalense, e os Authores Castelhanos o confessaõ.
Foy Bispo Portuense, e depois o creou Cardeal Benedicto XI. que de antes se chamava Pedro de Luna, nas Temporas de Setembro, anno 1409. Era jà neste tempo Benedicto declarado por naõ Papa, e deposto pelo Concilio de Pisa, a quem elle naõ quiz obedecer. Durou D. Pedro em sua parcialidade, atè ultimamente ser deposto pelo Concilio de Constancia no anno de 1417. ao qual pertinazmente resistindo, foy desamparado de quasi todos os seus Cardeaes, e D. Pedro da Fonseca se foy para Martinho III. (a quem ordinariamente chamaõ V.) o qual o confirmou na Dignidade em 17. de Março de 1419. e conhecendo bem suas partes, o mandou por seu Legado a Constantinopla, quando o Emperador Manoel lhe mandou dizer por sua Embaixada, que a Igreja Grega queria vir em uniaõ com a Latina. Nesta Legacia se ouve o Cardeal com tanto acordo, e prudencia, que trouxe os Gregos a Italia ao Concilio de Ferrara, que depois se passou para Florença contra os Prelados de Basilea, que com grande instancia pretendiaõ levar os Gregos ao seu Concilio. Morreo depois em Vicovaro a 20. de Agosto de 1422. Està sepultado em Roma em huma Capella junto da grande de Pio IV. que serve de Choro; tem a sepultura cinco Estrellas em aspa, que saõ as armas dos Fonsecas, e este Epitaphio:
Hortus in Hesperiis Præsul dignissimus oris
Fonseca è prole Petrus, lux, gloria magni
Sanguinis, & patrii superexaltator honoris,
Hic jacet: è sacro titulum Michaele recepit
Cardineum; cujus sapientia claruit altas
In laudes sensati animi, mirabilis iste
Doctor erat, divina colens, & amator honesti,
Mente pius, recti prudens, moderator & æqui.
Venit amara dies, qua diræ syncopa mortis,
Heù patrem hunc rapuit, Domini labentibus annis
Mille, quadringentis, bis denis, atque duobus,
Dum vigena Dies Augusti panderet astra.
Spiritus in Cælo tecum sacer Angele vivat.
§. VIII.
O Cardeal D. Antaõ Martins de Chaves.
Dom Antaõ Martins de Chaves sendo Deaõ de Évora, foy eleito Bispo do Porto pela vacancia de D. Vasco Bispo da mesma Igreja, quando foy transferido para a de Evora pelos annos de 1424. atè 25. Foy D. Antaõ insigne Prelado de muita virtude, e sciencia, e grande defensor da liberdade Ecclesiastica, como bem o mostrou em hum Concilio, que o Papa Martinho V. mandou ajuntar em Braga no anno de 1426. para a conservaçaõ da izençaõ dos Ministros Ecclesiasticos, os quaes com a licença, que a guerra traz consigo, andavaõ muy opprimidos dos Capitaens, e Soldados, em quanto as guerras delRey D. Joaõ I. duraraõ com Castella; e para remedio de taõ grandes males se ajuntaraõ dous Concilios neste Reyno, hum em Braga, e outro em Lisboa; e no de Braga, em que se D. Antaõ achou presente, se ordenaraõ muitas cousas tocantes à liberdade Ecclesiastica, e mostrou bem nelle este Prelado o valor, que em si tinha.