O Cardeal D. Gemes.
O Cardeal D. Gemes foy filho do Infante D. Pedro Regente destes Reynos, e de Dona Isabel sua mulher, filha do Conde de Urgel D. Gemes, e netta delRey D. Afonso III. de Aragaõ. Depois de ser preso na batalha de Alfarrobeira (em que seu pay morreo) se foy para sua tia a Infanta Dona Isabel Duquesa de Borgonha, sendo ainda de muy pouca idade. Vindo depois a Roma houve a perpetua administraçaõ do Arcebispo de Lisboa; e foy creado Cardeal de Santa Maria in Porticu na primeira creaçaõ, que o Papa Calixto fez anno 1456. no primeiro dia de Outubro, em que creou sómente tres; convem a saber dous sobrinhos seus, a este Senhor. Duarte Nunes do Leaõ, e outros homens graves, e de letras, dizem que foy Cardeal do titulo de Santo Eustachio; naõ sey com que fundamento, porque Onufrio sempre lhe chama de Santa Maria in Porticu na particular historia, que dos Cardeaes compoz. Porèm segundo todos os nossos, lhe dão o titulo de Santo Eustachio; podia bem ser que succedesse nelle por morte de algum outro Cardeal mais antigo.
Foy Principe de grande modestia, gravidade, engenho, e erudição, de cujas partes Eneas Sylvio, que depois foy Summo Pontifice Pio II, faz honradissima mençaõ, fallando da primeira creaçaõ do Papa Calixto na sua Europa cap. 58. com estas palavras: Tertius fuit Jacobus de Portugalia Regio sanguine natus, in quo ea modestia, ea gravitas, id acumen ingenij, id studium literarum, is amor virtutis emicuit, ut quamvis juvenis adhuc, tardius tamen opinione omnium ad eam dignitatem ascenderit.
Sendo de idade de 25. annos, e 9. meses, morreo em Florença a 19. de Setembro de 1459. com nome de castissimo; e he tido nesta Cidade em opiniaõ de Santo. Jaz sepultado na Igreja de S. Miniato, que he dos Frades de S. Bento, situada fóra dos muros da Cidade, na qual està o Crucifixo, que se inclinou a S. Joaõ Gualberto Author dos Ermitaens de Valumbrosa. Tem na sepultura este letreiro.
Regia stirps, Jacobus nomen, Lusitana propago
Insignis forma, summa pudicitia.
Cardineus titulus, morum nitor, optima vita,
Ista fuere mihi, mors juvenem rapuit.
Vixit Ann. XXV. Mens. XI. Dies X. ob. A.S.
MCCCCLIX.
§. XI.
O Cardeal D. George da Costa.
Dom George da Costa foy natural de Alpedrinha lugar do Bispado da Guarda, nasceo no anno de mil quatro centos e sesenta, foy varaõ dotado de grande engenho, virtudes, e altos pensamentos, em seus principios foy Lente de Santo Eloy de Lisboa, donde era Reytor hum tio seu varaõ de grande virtude, e Mestre que foy da Infanta Dona Catharina, filha delRey D. Duarte: e por respeito deste seu tio, e suas boas partes, o admittio a Infanta à sua familia: foy esta Princesa de muita virtude, que nunca quiz casar, nem fez alguma hora mudança nos trajos; teve porèm sempre grande casa, e Capella; e affeiçoando-se muito às letras, e procedimento de D. George, lhe deu algumas Igrejas rendosas; depois das quaes fez com ElRey D. Afonso V. seu irmaõ o appresentasse no Deado de Lisboa, donde servindo-se ElRey delle em cousas de mais momento, o mandou a Roma com negocios de muita importancia, a que elle soube dar taõ bom despacho, que vindo a este Reyno, movido ElRey de sua rara prudencia, e governo, lhe deu grande parte na administraçaõ, e regimento delle, tendo sempre muito credito em seu Conselho, e usando sempre delle em todos os negocios de paz, e guerra, que se offereceraõ em seu tempo. Achou-se com ElRey em Gibraltar, quando anno de 1464. se vio com ElRey D. Henrique o IV. de Castella; e em suas mãos juraraõ ambos os Reys de guardarem bem, e como deviaõ os acordos, que no proprio lugar entre si fizeraõ; no qual tempo era jà D. George Bispo de Evora; posto que poucos meses depois, e quasi no mesmo anno foy transferido para o Arcebispado de Lisboa, na qual dignidade fez muitos serviços a ElRey D. Afonso, o qual o enviou a Castella por seu Embaixador, quando ElRey D. Henrique lhe pedio, que lhe mandasse seus Embaixadores, para tratar os casamentos, que pretendia, convèm a saber entre a Infanta Dona Isabel sua irmãa com o mesmo Rey D. Afonso, e a Princesa Dona Joanna sua filha com o Principe D. Joaõ. A os contratos dos quaes desposorios jà tinha sido presente, e padrinho em Gibraltar. Foy a esta Embaixada com todo o estado, e acompanhamento conveniente à pessoa, e dignidade, que representava; posto que naõ teve este negocio effeito. Depois na empreza, que ElRey D. Afonso commetteo da conquista de Castella, o acompanhou sempre com muitas gentes à sua custa, e com sua pessoa.
Com estes serviços, e partes, crescendo cada dia mais em authoridade com ElRey D. Afonso, foy à sua instancia creado Presbytero Cardeal do titulo dos Santos Marcellino, e Pedro; por Sixto IV. no primeiro de Janeiro de 1476. Com a grandeza destas dignidades, e com a valia, que com ElRey tinha, era tanta sua authoridade no governo do Reyno, que veyo a ser pouco grato ao Principe D. Joaõ, como homem, que naõ quiz ser nunca governado por outrem. Pela qual razaõ se lhe mostrou contrario, e lhe chegou a dizer palavras taõ asperas, que por viver seguro, e sem molestia, se foy occultamente para Roma; pouco depois da chegada delRey D. Affonso de França.
Em Roma foy muy aceito ao Papa Sixto IV. e lhe deu o Arcebispado de Braga, que teve juntamente com o de Lisboa, atè que no anno de 1487. o renunciou em seu irmão uterino D. George. Valeu tambem muito com Innocencio VI. que a Sixto succedeo, e de Presbytero Cardeal o fez Bispo Cardeal Albano.