Tomaraõ huma ingloriosa contenda: Non cogitantes (como diz a Sagrada Escritura) prosperitatem adversum cognatos malum esse maximum, & non civium, sed hostium trophea capturi. Estava o Padre Frey Bernardo em Madrid, quando se lhe encarregou esta occupaçaõ, e se lhe encomendou, que deixados todos os outros intentos se applicasse sómente à Chronica delRey D. Sebastiaõ, pelo que logo na Corte começou a obra, e a continuou atè a Embaixada de D. João de Borja. Como neste tempo estava já taõ exercitado na composiçaõ, e preceitos da Historia, dizem os que a viraõ, que levava esta, ventagem a todas as outras, que elle tinha composto, e que se se acabàra, fora hum illustre ornamento da lingoa Portuguesa. Porèm a tudo atalhou a pouca fortuna deste Reyno, que tirando-lhe outros bens lhe quiz também roubar o engenho do Padre Frey Bernardo, quando estava mais assasoado para dar perfeitissimos fruitos.

Finalmente vindo de Madrid já falto de saude, se lhe aggravou a infirmidade no caminho, de maneira, que naõ pode passar de Almeida, onde continuando a doença, em pouco tempo lhe consumio as forças, e acabou a vida a 27. de Fevereiro, recebendo primeiro os Santos Sacramentos, e conhecendo sua morte com mostras de muita devaçaõ, e de verdadeiro Religioso. Seu corpo foy levado ao Mosteiro de Santa Maria de Aguiar, junto a Castel Rodrigo, que he de Religiosos de S. Bernardo, e sepultado na Capella Mor, onde se vè hum letreiro de pedra na parede, que diz: Aqui jaz o muy douto Padre Frey Bernardo de Brito Chronista Mòr, que foy deste Reyno, morreo no anno de 1617. Foy pessoa de agradavel presença, grande de corpo, bem proporcionado, e de robusta compreiçaõ, se a naõ estragara com o demasiado estudo, o que acontece a muitos engenhos de Espanha, que naõ saõ menos prodigos da vida no exercicio das letras, do que Silo Italico o confessa no das armas. Foy de suave conversaçaõ, e de felice memoria. Prègou com muita fama, e em todos os estudos, a que se applicou, mostrou grande talento, o qual sempre empregou no serviço publico, eternizando os Principes deste Reyno, illustrando a Nobreza delle, e resuscitando, como outro Deucaleonte, os Portugueses, atè das pedras espadaçadas dos Romanos, para lhes dar perpetua vida na memoria dos homens. Evora a 2. de Abril de 1628.

ELOGIO
DE EVORA.

No meyo da Provincia de Alentejo està situada a Cidade de Evora[255] em hum posto taõ eminente, que fica senhoreando os campos, que a cercaõ por toda a parte atè pararem em quatro serras, com que a natureza em larga distancia a cercou, quasi como com muro. Da parte do Oriente a serra de Ossa; de Meyo dia a de Portel, e Viana, do Norte a de Arrayolos, e do Occidente a de Montemuro. He este sitio taõ agradavel à vista, que aos de Italia lhes pareceo que era Roma; e aos de Castella, o seu Madrid, e Toledo. Esta he aquella Cidade, que sendo fundada por Elysa primeiro Povoador de Espanha, tem sustentado por tantos seculos o mesmo nome, e lugar, quando das Metropolis das mayores Monarchias naõ se sabem já os vestigios donde foraõ. A fama deste sitio trouxe a si da Gallia os Celtas, a quem admitindo os Eborenses por Cidadaõs, os dividiraõ depois por as Provincias vizinhas, reconhecendo-se sempre por colonias suas todos os Celtiberos de Espanha. Esta he a Cidade, a cuja vista Viriato levantou os primeiros tropheos dos desbaratados exercitos Romanos, e Sertorio edificou os muros, aqueductos, e fabricas Corynthias dos despojos daquelle povo, que foy vencedor do mundo,acquiridos com os soldados Eborenses; e que ainda hoje permanecem por testemunhos de tamanha gloria. Este o lugar, em cujo nome quiz o primeiro Emperador de Roma, que ficasse eternizada a memoria de sua liberalidade. Esta foy a Cidade, que primeiro ouvio as alegres novas do Evangelho, e della, como de Sede propria, as recebeo por S. Mancio toda Lusitania. Esta foy o propugnaculo dos Reys Godos contra o Imperio. E naquella grande ruina ultima de Espanha, posto que se sometteo ao poder dos Arabes, inda depois de rendida se temeraõ tanto della, que levaraõ a principal parte de seus moradores a Marrocos, cabeça de sua Monarquia, onde os Eborenses fundaraõ outro lugar, com o nome da mesma patria, em que conservaraõ a Fè, e a liberdade por muitos seculos, atè que no tempo delRey D. Joaõ I. se tornaraõ a Espanha. Nenhuma força pode recuperar esta inexpugnavel fortaleza; e assim foy só restituida pela industria intrepida de Giraldo Illustre Cavalleiro, que com ella deu aos Reys Portugueses a mayor parte da Lusitania. Esta foy a primeira em defender a liberdade de Espanha, naquella milagrosa batalha do Triumpho da Cruz, onde seus moradores se ouveraõ com tanto valor, que a mesma Cruz lhe ficou por premio em perpetua memoria de taõ glorioso Triumpho. Na conservaçaõ da liberdade Porruguesa foy ella a primeira, que servio a ElRey D. Joaõ I. depois que intentou a defensaõ do Reyno. Aqui foy a praça de armas do Condestable, com cujos moradores alcançou tantas victorias. Aqui permanece a primeira Igreja de Espanha, illustrada com tantos Santos, e gravissimos Prelados. Esta foy a patria de tantos Varoens insignes em letras, onde florecem todas as sciencias divinas, e humanas. Esta he aquella, que produzio a Real planta da Senhora Infanta Dona Catharina; donde refloreceo com mayor felicidade a nossa Monarquia. Esta foy a primeira, que teve valor para desprezar o poder da Monarquia Castelhana, a cujo exemplo deve Catalunha a conservaçaõ de seus foros, e Portugal sua honrosa, e amada liberdade. E finalmente Evora he a que com a restauraçaõ de seu Rey, e natural Senhor tem descuberto outro novo mundo a todas as Provincias de Europa.

NOTAS DE RODAPÉ:

[255] I. Rep. Hesp. Botero I. p. De Principi Christ. l. 5. t. Afons. I. Herr. na entrad. de Port. l. 3 f. 97 e l. 2 f. 45. Goropio na sua Hesp. Plin. l. 3. c. 1. Mon. Lusit. 5. p. l. 3. Monarch. Lusit. I. p. l. 3 c. 21. Refen. Plin. l. 4. c. 22. O Arc. D. Rod. da Cun. na Hist. de Lisboa p. I. c. 9 n. 1. Moral. l.12. c. 14. Razis. Hist. Eboren. de Res. Chron. de D. Joaõ I.de Cast. an. 12ᵒ c. 19 Chron de D. Fern. o S. c. 10. Monarch. Lusit. Chron. delRey D. João I Carta do Biscainho O Conde Thesauro I. Campegiamenti di Piamonte.

INDEX

Das cousas mais notaveis, que se contem neste Livro, e das Familias, de cujos Appellidos se explicaõ os brasoens. Vay notado com tres numeros o primeiro he do Discurso, o segundo do Paragrafo, e o terceiro da Pagina.

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