Da nobreza das familias de Portugal com a noticia de sua antiguidade, origem dos Appellidos, e razaõ dos Brazões das Armas de cada huma.
§. I.
Sendo a Nobreza das Familias a cousa mais prezada nas Republicas politicas, he juntamente a menos conhecida, e bem entendida de muitos, que se della prezaõ. E como os nobres Portugueses estimaõ, e com razaõ, tanto sua generosidade, e fidalguia, he justo que naõ falte em nosso vulgar esta materia particularmente escrita. Pelo que me pareceo fazer este Discurso, em que se veja, que cousa he a Nobreza, de que partes consta, e da origem, que tiveraõ os Appellidos, e Brazoens das Linhagens nobres, e como se illustraraõ com a clareza das dignidades, e acçoens das virtudes.
Familia he huma ordem de descendencia, que trazendo seu principio de huma pessoa, se vay continuando, e estendendo de filhos a netos, de maneira, que faz huma parentella, ou linhagem; a qual da antiguidade, e clareza das cousas feitas he chamada Nobre.
Esta palavra Nobre, he latina, e se derivou de Nobilis; que tanto val, como notavel, e conhecido. Segundo Scipiaõ Amirato[91] nos Discursos, que faz antes das Familias de Napoles, e de outros, que melhor sobre esta materia escreveraõ, se mostra, que a Nobreza consta de duas partes sómente, que saõ antiguidade, e clareza. A antiguidade se mostra nas Familias contando nellas pelos tempos passados muitos gràos, idades, ou geraçoens; e confórme a melhor opiniaõ, tanto val huma idade moralmente fallando, como 34. annos de tempo. Porque por estes annos ordinariamente começaõ os filhos a succeder aos pays; e assim quanto mòr numero destas successoens, ou idades mostrar cada hum de noticia de sua Familia, ainda que naõ conte os gràos successivos de pay a filho, tantas idades, ou geraçoens mais mostrarà. Os gràos saõ as successoens continuadas de pay a filho sem interrupçaõ. Sendo duas Familias antigas, huma que mostre mais gràos continuados de pay a filho, e outra menos; porèm que haja della mais antiga memoria por Chronicas, ou outros documentos certos, serà esta tida por mais antiga, ainda que continue menos successoens.
A antiguidade das Familias de Hespanha he das mayores de Europa, porque se conservou sempre com seus Reys, que saõ dos mais antigos della. E assim dos Godos para cà se hade tomar a sua principal origem; posto que tambem dos Romanos venhaõ algumas das illustres Linhagens de Hespanha, pois a possuhiraõ tantos seculos. E ainda que os Romanos foraõ expellidos pelas Naçoens do Norte, que aborreciaõ grandemente o nome Latino; todavia ficaraõ muitos em Italia, França, e Hespanha, como parece claro das leys de Fuero juzgo, que delles fallaõ.
Depois da entrada dos Arabes em Hespanha, foy Portugal hum dos primeiros Reynos, que se recuperou pelos Christaõs; e os primeiros Fidalgos, que de Leaõ, Asturias, e Galliza os vieraõ povoar, foraõ em tempo delRey D. Ramiro, como se ve do Conde D. Pedro. Porèm dando depois ElRey D. Fernando o I. de Leaõ esta Provincia a D. Garcia seu filho, entraraõ outros muitos de novo com sua Corte, e ultimamente com a Rainha Dona Thereza mulher do Conde D. Henrique; ao qual acompanharaõ tambem alguns Fidalgos Franceses; àlem dos quaes vieraõ outros, que ficaraõ no Reyno, por se acharem nas tomadas de Lisboa, Sylves, e Alcacer do Sal, que se conquistaraõ com o favor das Armadas das Provincias do Norte, que hiaõ à Conquista da terra Santa. Entraraõ depois algumas Familias de Castella no tempo do nosso Rey D. Pedro, e muitas mais nos delRey D. Fernando pela pretençaõ, que teve de se fazer Senhor daquelle Reyno. A servir ElRey D. Joaõ I. assim nas guerras de Castella, como na tomada de Ceita, vieraõ muitos Fidalgos de França, e Inglaterra, que ficando no Reyno, deraõ principio a algumas Linhagens delle.
Tornaraõ a entrar novas Familias de Castella em tempo delRey D. Afonso V. quando se veyo daquelle Reyno, deixando a pertenção, que tinha delle por parte da Excellente Senhora. E com todas as Rainhas de Portugal vieraõ Fidalgos, assim dos Reynos de Aragaõ como de Castella, e de Inglaterra, de que hà linhagens illustres no Reyno. E ultimamente depois de descuberta a India, vieraõ algumas Familias nobres de Italia por razaõ do cõmercio. Estas saõ as antiguidades, que com certeza podemos dar às linhagens de Portugal.
A clareza, que como dissemos, he outra segunda parte da Nobreza se mostra pelas dignidades, ou honras, que os daquelle Appellido alcançaraõ na Republica, como saõ os Estados Titulares, ou Senhorios de terra, Officios Mòres da Casa Real, governos, cargos supremos militares, e civîs. Fazem tambem clareza as dignidades grandes Ecclesiasticas, como Pontificados, Cardinalados, e Bispados; e assim mesmo as letras, o valor, e lealdade, liberalidade, justiça, e sobre tudo a santidade, pois excedendo todas as grandezas humanas, se levanta às divinas. E assim quando qualquer destas cousas he insigne, naõ illustra menos a familia, que muitos Titulos.
Tem a clareza sobre a antiguidade, segundo Scipiaõ Amiranto, que ainda que seja moderna, val mais, que a antiguidade sem ella. Pelo que estando huma Familia Titulada, ainda que seja conhecida de pouco tempo, fica preferida à outra mais antiga, se atè então naõ alcançou semelhante dignidade. Em iguaes Titulos de dignidade será mais clara a familia, que tiver mayor numero, e a mayor dignidade (ainda que menos em numero) vence a multidaõ das menores. De modo, que val hum Ducado por muitos Condados, e hum Senhor livre, mais que todos os avassalados.