§. XVII.
Origem dos Timbres.
Saõ parte das Armas os Timbres, que hoje se trazem sobre os Elmos, o qual uso he antiquissimo, assim entre os Gregos, e Romanos, como nos Alemaens, segundo se vè de muitos lugares de Virgilio na guerra Troyana, e no Catalago da gente, que veyo em favor de Turno contra Eneas. E Plutarco escrevendo a vida de Mario, diz[131] que a cavallaria, dos Cymbros fazia terrivel apparencia tanto pelo resplandor das Armas, que traziaõ vestidas, como pela variedade das cimeiras, ou timbres, que cahiaõ sobre as celadas, que representavaõ diversas figuras de feras: Galeas, diz elle, ornatas horrendis hiantium animalium formis ferebant, &c. Teve este costume principio das gàleas, ou capacetes, que era armadura da cabeça feita antigamente de couro; a qual para mayor bravosidade, e fortaleza ornavaõ por cima com a cabeça do animal, cujo elle fora: e depois vindo-se a usar a mesma gàlea de ferro, naõ perdeo com tudo a forma antiga, ainda que mudou a materia, como se vè em Alexandre ab Alexandro;[132] e parece ainda das medalhas, e estatuas antigas dos Romanos, e Gregos. Os paquifes ou folhagens, que acompanhaõ os timbres, tiveraõ principio dos penachos dos elmos, como parece do mesmo Author.
Tambem os Principes, e Senhores Titulados trazem Coroneis em cima dos elmos, o qual costume, segundo se vè de Plinio, era ja introdusido em seu tempo. Porque tendo as Familias Nobres de Roma nos pateos das casas por insignias as imagens de seus antepassados de pào, ou cera, com as cores, e proporçoens de cada huma a mais natural, que podia ser; diz Plinio, que em seus tempos usavaõ jà em lugar destas imagens, huns escudos de bronze, no meyo dos quaes entalhavaõ de meyo relevo em prata os rostos de seus mayores, ornando-lhes as cabeças com as insignias triumphaes, ou quaesquer outras Coroas, que lhes competiaõ, como costumavaõ às imagens de vulto. Porèm vindo-se depois a perder as artes com a entrada das Naçoens barbaras do Norte; se contentaraõ de pòr em cima dos escudos pintados os elmos sómente em memoria dos rostos, com as coroas, cristas, ou cimeiras, que he o mesmo, que os Franceses chamaõ Timbre, que lhes competiaõ. Do elmo descem penduradas duas correas, que parece tiveraõ principio do Baltheo, ou tiracollo, insignia propria da Milicia Romana.
§. XVIII.
Dos Officiaes que os Reys de Portugal crearaõ para conservaçaõ das insignias dos Nobres, e da Casa das Armas de Cintra.
Na conservaçaõ das Armas da Nobreza poseraõ os Reys muito cuidado,[133] entendendo, que foraõ ganhadas pelo valor dos Fidalgos deste Reyno, na recuperaçaõ delle. E como a grandeza, e segurança de seus Estados consistia no valor dos Nobres, por galardaõ, e agradecimento de tantos serviços, procuraraõ conservar as Armas de cada Familia. Foy este intento taõ antigo nos Reys de Portugal, que se conta na Chronica delRey D. Fernando cap. 30. que mandou fazer hum rico paramento todo bordado de aljofares com as Armas dos Fidalgos de Portugal, de modo, que naõ tiveraõ menos cuidado da conservaçaõ dos seus brazoens, que dos Appellidos; querendo, que só aquelles, a quem de direito tocavaõ, fossem honrados com ellas. Para isto ordenaraõ os Reys de Armas, em cujos livros mandaraõ pintar as insignias de todas as Linhagens do Reyno.
Começaraõ estes Officios em tempo delRey D. Joaõ I. porque atè entaõ, pelas poucas mudanças, que houve em Portugal, eraõ todos os Nobres conhecidos; e pacificamente possuhia cada hum as heranças, e honras, que de seus passados alcançàra. Porèm como por morte delRey D. Fernando se seguiraõ taõ largas, e continuadas guerras sobre a successaõ desta Coroa, sustentando huns as partes da Rainha Dona Brites filha do morto Rey D. Fernando, e mulher delRey D. Joaõ de Castella, e outros, as do Mestre de Aviz, e Rey D. Joaõ I. de Portugal, foy tanta a variedade, e alteraçaõ das cousas, que com razaõ diz o Chronista,[134] que começou entaõ neste Reyno, em certo modo, a setima idade do mundo; porque graõ parte das Familias Nobres, que seguiraõ a opiniaõ de Castella, ficaraõ extinctas, e acabadas de todo, e algumas, que sustentaraõ as partes delRey D. Joaõ I. foraõ de novo levantadas a grande lugar. Estes, como naõ eraõ dantes conhecidos, para se acreditarem com o povo, tomaraõ em muitas partes os Appellidos, e Armas de outras Familias antigas, que lhes naõ pertenciaõ. E assim diz o mesmo Author, que no dia da batalha de Aljubarrota estavaõ as Bandeiras dos Aventureiros cheyas de varias Armas, e insignias, que a muitos naõ competiaõ. Pelo que considerando ElRey D. Joaõ I. depois de ter o Reyno pacifico, como a confusaõ desta materia era de graõ prejuizo à Nobreza, movido do exemplo dos Reys de Inglaterra, com quem estava aparentado, introdusio o Officio dos Reys de Armas: e de entaõ para cà os hà em Portugal. Prova-se isto, porque Fernaõ Lopes na 2. p. cap. 39. da Chronica deste Rey dà a entender claramente, que atè o tempo da batalha de Aljubarrota os naõ houve; e o mesmo parece das historias dos outros Reys atè entaõ, nas quaes senaõ acha feita mençaõ alguma de Reys de Armas; e com tudo de entaõ para cà se trata delles nas Chronicas dos Reys ordinariamente nos lugares, que lhes cabe. Pelo que he evidente; que ElRey D. Joaõ foy o primeiro, que os mandou vir a Portugal. Porém vendo ElRey D. Manoel, como ainda esta materia naõ estava em sua perfeiçaõ, mandou Antonio Rodrigues seu Rey de Armas às Cortes dos mais dos Principes Christaõs a saber em particular as obrigaçoens, e usos, que os Officiaes da Nobreza tinhaõ: e depois que assentou a ordem, que se havia de guardar, poz o nome, ou (como se diz nos livros de Armaria) bautizou de novo fallando equivocamente, com grande solennidade nos Paços da Ribeira tres Reys de Armas com seus Arautos, e Passavantes; e mandou ver as Sepulturas do Reyno para dellas se notarem as armas, e insignias dos Fidalgos; de muitas das quaes fez pintar os Escudos com suas cores, e Timbres em huma fermosa sala, que para isso mandou edificar nos Paços de Cintra; e deu comprido Regimento aos Officiaes da Armaria para a conservaçaõ da Nobreza, e armas das Familias, de modo que naõ houvesse mais a confusaõ antiga.
Na Casa de Cintra naõ estaõ todos os Brazoens, porque naõ cabiaõ, e só se pintaraõ os das Familias, que entaõ parece andavaõ na Corte, e no serviço do Paço.
No meyo do tecto da Sala estaõ as Armas Reaes de Portugal, ao redor as do Principe, Infantes D. Luiz, D. Fernando, D. Afonso, D. Henrique, D. Duarte, Dona Isabel, Dona Brites.