Na explicaçaõ das Armas fizeraõ os Officiaes da Nobreza pouca mais diligencia; porque usando sómente de certos livrinhos estrangeiros, que trataõ das cores, e metaes dos Escudos, todo seu intento poseraõ em explicar estas cores; dizendo, que o vermelho significa sangue, o branco pureza, e assim outras cousas vulgares, que de cada cor, e metal ordinariamente se dizem, e por aqui explicaõ com regras geraes todos os Brazoens. O mesmo quasi fazem das peças dos Escudos, dizendo que os animaes saõ mais nobres, que as plantas, e estas, que os metaes, e os metaes, que os edificios, e outras cousas semelhantes contra toda a boa razaõ. Porque deste modo ficavaõ sendo mais nobres as Armas de hum particular, que tivesse no Escudo hum Lobo, ou hum Leaõ, que naõ as de hum Rey, que tivesse hum Castello, ou huma Cadeya; como saõ os de Castella, e de Navarra, ou huns Escudos, como os de Portugal. Pelo que com razaõ reprovaõ esta opiniaõ Thomaz Garsone[137] na sua Praça universal, e Gregor. Lopez Madeira[138] nas Excellencias da Monarquia de Espanha; os quaes resolvem, que a Nobreza das Armas naõ se hà de regular pelas cores, ou materiaes, de que constaõ; mas pela dignidade de quem as traz, ou pela bondade do acto, em que foraõ ganhadas. Sò na ordem de trazer as Armas poseraõ mayor cuidado, ordenando que sò os Chefes tragaõ as Armas direitas, que he o mesmo, que sem differença; e a todos os outros filhos segundos se lhes poem alguma peça no Escudo para differença. Esta peça se toma ordinariamente das Armas dos Avòs. E sendo muitos irmaõs, o primeiro tem a escolha para tomar a melhor differença, Ve-se isto muy distinctamente na Casa das Armas de Cintra, onde mandou ElRey D. Manoel pòr as suas no meyo, e à roda as de todos os seus filhos; dos quaes hum tomou por differença as de Castella, outro as de Aragaõ, outro as de França, Inglaterra, &c. cada hum por sua precedencia. Quando pintaõ os Escudos, os poem sempre inclinados para a parte direita; posto que os Chefes os trazem hoje direitos com os elmos fronteiros, havendo algum animal no Escudo, ou outra peça, se poem tambem por Timbre: ninguem sendo Chefe pòde trazer as Armas com outra mistura, tirando se o for de muitas geraçoens; porque entaõ as poderà trazer juntas. Os outros podem usar das dos quatro Avòs, quarteadas, ou das de sua mãy sómente. As mulheres trazem as Armas em Escudos quadrados postos com a ponta para cima, partindo o campo em palla, e deixando a parte direita delle para as Armas do marido.

§. XIX.

Do modo, com que saõ postos os nomes aos Officiaes da Armaria.

ElRey D. Manoel depois, que mandou fazer o Regimento dos Officiaes da Armaria, diz Damiaõ de Goes no cap. 80. da 4. p. da sua Chronica, que em Lisboa nos Paços da Ribeira fez hum acto publico muito solemne, em que deu nome a todos os Reys de Armas, e Arautos, e Passavantes destes Reynos, a cada hum delles separadamente da sua Provincia. Pelo que me pareceo bem pòr aqui as ceremonias, com que estes actos se fazem; porque alèm de pertencerem a este lugar, atègora as naõ vî escritas em outra parte. Estando ElRey sentado debaixo do Docel em Sala publica, vem o novo Passavante, e o Rey de Armas o appresenta sem cotta, nem Brazaõ diante delRey, e posto o Passavante de joelhos faz o juramento seguinte. Foaõ Passavante juro a estes Santos Evangelhos nas maõs de Foaõ Rey de Armas, que bem, e verdadeiramente, e com todo o cuidado, e diligencia aprenda todo o que necessario for ao nobre officio das Armas, para que dignamente possa passar, e ser acrescentado ao officio de Arauto, e de Rey de Armas, quando ElRey Nosso Senhor disso houver por seu serviço de me prover. E assim juro em todo o que pelo dito Senhor, e por aquelles, que para elle seu lugar tiverem, me for mandado, que de meu officio de Passavante faça, e farey toda a fidelidade, cuidado, e diligencia, assim como devo, e saõ obrigado fazer ao serviço de meu Rey natural, e Senhor.

Acabado o juramento, o Copeiro Mòr traz huma taça de prata branca com agua, e sem cobertura, e o Veador huma toalha, e dando o Copeiro Mòr a taça a ElRey, lhe lança por cima da cabeça huma pouca, e lhe poem o nome da Villa, que quer, e o principal Senhor, que està na Sala, toma a toalha da maõ ao Veador, e a dà a ElRey para alimpar as maõs. Feito isto, o Rey de Armas lhe poem o Brazaõ no peito à parte esquerda, e veste a cotta de Armas atravessada, como he costume trazerem os Passavantes, e depois de vestidos, assim elles, como os mais Officiaes de Nobreza, e o Rey de Armas bejaõ a maõ a ElRey, e o Copeiro Mòr dà ao Passavante a taça de prata, em que esteve a agua, a qual leva na maõ, porque de direito lhe pertence.

O Arauto vem a este acto vestido, ainda como Passavante, e acompanhando-o diante todos os Officiaes da Nobreza, leva-o pela mão o principal Rey de Armas, o qual o appresenta diante delRey: o Arauto entaõ posto de joelhos com a mão em hum Missal, que o Rey de Armas tem aberto, faz o juramento seguinte.

Juro aos Santos Evangelhos nas maõs do Rey de Armas Foaõ, que bem, e fiel, e lealmente servirey a ElRey Nosso Senhor toda a minha vida, e me naõ mudarey, nem passarey para nenhum outro Rey, nem Principe, nem mudarey o nome, que pelo dito Senhor me he posto, resalvando, se para elle o dito Senhor me der licença.

Juro assim mesmo, que em qualquer maneira, e em qualquer tempo, que sentir danno, ou proveito do dito Rey Nosso Senhor, que a meu officio toque, e pertença, o revelarey, e direy a sua propria pessoa, ou a quem por elle me for mandado, resalvando em guerra, se o dito Rey nosso Senhor com algum Rey, ou Principe a tivesse, ou com qualquer outra pessoa, a que por meu officio saõ obrigado guardar segredo, assim a meu Senhor, como à parte contraria.

Juro assim mesmo, que em todas as mesagens, recados, embaixadas, de que for encarregado, assim pelo dito Rey Nosso Senhor, como pelos que seu lugar, e mandado para elle tiverem, como de qualquer outro Rey, ou Principe; posto q́ estè em imizade com o dito Rey nosso Senhor, farey verdadeiras, e fieis relaçoens: inteiramente direy, e fallarey o que me for dito, e mandado, e naõ acrescentarey, nem minguarey disso cousa alguma por odio, dadivas, nem prometimento, nem por outro respeito algum, e em tudo farey verdade, servirey fielmente, &c.

Juro assim mesmo, que quando me achar em algumas justas, ou torneos, ou em guerras, escaramuças, desafios, assaltos, ou em quaesquer outros actos de guerra de qualquer sorte, e qualidade que sejaõ, sempre diga fiel, e verdadeiramente tudo aquillo, que vir por meus olhos à boa fé, e sem engano, nem malicia, e sem acrescentar, nem diminuir alguma cousa em nenhum modo que seja; e de tudo farey verdadeiro, e fiel testimunho, sem tirar, nem minguar, nem acrescentar a honra, e louvor, e fama de nenhuma pessoa por nenhum respeito que seja.