[186] Chron. de D. Duarte de Meneses, c. 50.

DISCURSO IV.

SOBRE AS MOEDAS DE Portugal.

§. I.

A noticia, e ponderaçaõ das Moedas, e Medalhas antigas tem occupado a grandes engenhos, e vemos hoje muitos volumes, que trataõ sómente deste argumento, por quanto nas imagens das Moedas, e suas inscripçoens se conserva a memoria dos tempos mais, que em nenhum outro monumento. Os livros depressa se consomem, se senaõ copiaõ, as fabricas, e estatuas naõ passaraõ de hum lugar, e ahi mesmo acabaraõ, as pyramides, e obeliscos, em que se esculpiraõ os hieroglyphicos mysteriosos, que continhaõ as propriedades occultas, jà delles naõ ha memoria. Pelo que nenhuma cousa conserva tanto a antiguidade, como as Moedas, e Medalhas, que pela incorrupçaõ dos metaes perseveraõ perpetuamente, e por seu grande numero estaõ em toda a parte, onde representaõ os verdadeiros rostos, que tiveraõ os mais antigos Principes, seus nomes, suas vitorias, suas fabricas, e finalmente o valor de todas as cousas, porque todas ellas se reduzem ao pezo, e valia da Moeda. Exemplo seja disto a historia dos Emperadores, que fez Roberto Herbipolita tirada só das suas Medalhas. A Religiaõ, Milicia, e Exercitos da mesma Republica se mostraõ em outro volume de Guilhelme de Choul tirado das Moedas antigas. Julio Orsino pelas mesmas Medalhas escreveo, e deduzio as geraçoens das antigas Familias de Roma. O Arcebispo de Tarragona D. Antonio Agostinho, e Sebastiaõ Eriso mostraraõ em grandes volumes as empresas, hieroglyphicos, e mysterios, que em outras muitas Medalhas os Principes, e Respublicas quizeraõ significar ao Mundo. Sobre os Siclos, e Moedas naõ saõ de menos erudiçaõ, e estima os doutissimos Budeu, e Covarruvias, e outros muitos, que nesta materia escreveraõ. Por onde atè no Evangelho Sagrado[188] se nos dá por exemplo da Sabedoria o Perfeito pay de Familias, cujo thesouro se compoem das Moedas antigas, e modernas: Qui prosert de thesauro suo nova, & vetera. E porque naõ ha atègora quem divulgasse inteiramente o que toca às Moedas deste Reyno, e da antiga Lusitania, me pareceo fazer dellas este breve Discurso.

§. II.

Moedas Romanas.

Antes da entrada dos Romanos em Espanha, ou os Espanhoes naõ usaraõ de Moeda propria; ou se as houve, naõ chegaraõ a nòs; porque algumas, que se acharaõ com letras Gregas, ou Carthaginesas, saõ mais das Colonias, que cà tinhaõ estas Naçoens, que de Espanha. E a razão he, porque como não havia cá Principe universal; e os que mandavão varias Respublicas, erão mais como Capitaens, e Governadores, que como Reys absolutos, não havia quem obrigasse aos povos a aceitar Moeda esculpida com seu rosto, e nome, mas vindo este poder a mãos de Sertorio, como sua intençaõ foy fazer-se Senhor de Espanha, como Mario, a quem elle seguio, intentàra fazer-se de Roma, foy o primeiro que achamos, que bateo Moeda; a qual tinha de huma parte o seu rosto com huma vista menos, e da outra parte huma cerva, que era a sua divisa; porque huma branca, que consigo trazia, fingio que lha mandàra a Deosa Diana. Em Evora se achou huma moeda de prata com esta escultura, que eu tenho na fórma, que aqui està estampada.

O Mestre Ambrosio de Morales refere outra semelhante, que lhe veyo às mãos, que era de bronze, e tinha o nome de Sertorio.