VIDA DE TAKLA HAYMANOT
PELO
P. MANUEL DE ALMEIDA
da Companhia de Jesus
PUBLICADA POR
FRANCISCO MARIA ESTEVES PEREIRA
LISBOA
IMPRENSA LUCAS
93--Rua do Diario de Noticias--93
1899
PREFAÇÃO
Dos successos e vicissitudes do antigo reino da Ethiopia sómente se possuem noticias circumstanciadas a partir do reinado de Amda Seyon (6807-6836 M., 1315-1344 J. C.), de cujos gloriosos feitos foi conservada a narração na obra conhecida pelo nome de Historia das guerras de Amda Seyon[[1]]. Dos tempos anteriores não existem chronicas, apenas ha listas dos reis[[2]], e muito breves noticias se encontram espalhadas em differentes escriptos. Entre os documentos, que prestam mais valioso subsidio ao estudo da historia antiga de Ethiopia, são de grande importancia as vidas dos santos, que exerceram alguma influencia no mesmo paiz, quer na introducção e propagação do christianismo, quer na implantação e diffusão do monachismo, quer nas revoluções politicas. Este facto não deve causar admiração, e resulta principalmente da indole de certo modo theocratica do governo de Ethiopia, do grande poderio do clero, e das condições sociaes dos escriptores, quasi sempre ecclesiasticos[[3]].
Entre os santos naturaes de Ethiopia o mais eminente é sem duvida Takla Haymanot, o qual sempre foi tido pelos Abexins por varão apostolico, de analisada virtude, e maravilhoso em milagres; e se não foi o auctor e fundador da ordem monastica, que depois teve o seu nome, reformou-a e illustrou-a grandemente, de modo que ella floresceu durante seculos em numero de religiosos, em exemplo de virtudes heroicas, e em letras, quanto se podia esperar de gente, que nunca teve mestres, que lhes dessem algumas luzes das sciencias humanas, nem da theologia scholastica[[4]]. O zelo de Takla Haymanot não se limitou a edificar na virtude com a pregação e o exemplo os christãos do seu paiz; mas gastou a maior parte da sua vida, longa e laboriosa, na implantação da fé christã entre as gentes rudes, que habitavam as regiões meridionaes de Ethiopia, como Damot e Davaro, as quaes ainda então viviam mergulhadas no mais grosseiro gentilismo[[5]].