A muitos parecerá contradictorio que, tendo nós combatido em toda a nossa vida, ha mais d'um quarto seculo, o obscurantismo, os absusos e os crimes commettidos á sombra das religiões positivas, sobre tudo da religião dogmatica, nos aventuremos, sobre as ruinas do velho mundo e á entrada dum novo cyclo historico, a soltar cantos d'uma tão ardente fé religiosa!...

A resposta encontral'a-ha o leitor na nota elucidativa á poesia O que eu vi, que adiante publicamos, e nas immediatas.

Se errámos ou não, os factos é que o hão-de decidir d'aqui mais a algum tempo.

Só aqui diremos que para se unirem pelo Amor e pela Justiça as duas metades da humanidade, de que depende a integração do destino humano, o homem e a mulher, que as crenças religiosas e as demonstrações scientificas trazem tão profundamente divorciados na vida do lar e no foro interno; para levarmos ao povo a communhão do novo credo e levantarmos-lhe o coração e a alma muito acima das meras questões de interesses materiaes em que o trazem envolvido: é preciso procurar um ideal fóra das contingencias humanas, preparar com elle as almas para os actos fundamentaes d'abnegação e d'altruismo que reclama o problema social, o que só se pode alcançar á sombra de religiosidade que está no fundo da nossa natureza, mudando apenas de objectivo e de processo.

Qualquer que seja porém, a opinião em contrario de nossos competidores, e que acatamos, é d'esperar que attendam a que, n'uma obra d'arte, não se deve perder de vista a sinceridade do seu auctor, o fim que se propõe servir e o meio que emprega para o alcançar.

Sob este triplice ponto de vista, em que sempre nos mantivemos, talvez possamos contar com a benevolencia dos nossos contrarios.

Ainda uma palavra sobre as razões porque só agora, no fim da nossa carreira, nos aventuramos a publicar estes trabalhos.

Dentre muitos outros, o motivo predominante encontral-o-ha o leitor no respeito quasi religioso que sempre tivemos pela publicidade, por este momento sagrado em que entregamos aos outros as nossas ideias, as nossas opiniões, os nossos sentimentos!

Accaso terão direito a sel-o?! Irá n'elles alguma cousa que seja menos verdadeira, menos justa, menos bella?!

E, quando tal se dê, o que pensarão de nós os que vierem a julgar-nos?!...