Harpa de Deus exposta aos quatro ventos, Onde o sopro, que a vaga á vaga impelle, Descanta harmonioso um hymno Áquelle, Que a terra e os ceus encheu de mil portentos!...

Quer a colera accesa da tormenta Te divida em terriveis multidões De tigres, de pantheras, de leões, Rugindo em cada vaga que rebenta;

Quer ouça pelas algas verde negras, E as praias solitarias onde eu choro... Cantar o teu amor em vasto côro De rolas, rouxinoes ou toutinegras:

Ou fera ou pomba, egual amor me atêa O teu gentil amor e altivo orgulho, Quando este arroja á praia o pedregulho, E aquelle as lindas conchas lhe semeia!...

És sempre o mesmo! És sempre o grande amigo, Sobre cuja espantosa immensidade Vejo passar o sopro da Verdade, Da doutrina de Deus, que adoro e sigo!

Buarcos, 1869.

V

ÁS NUVENS

Vapores que em vistosos cortinados Armaes dos ceus o templo de safira Com purpura e finissimos broxados, Sêde hoje o assumpto para a vóz da lyra!

Que eu quero ter a intima certeza Que, antes da hora da fatal partida, A minha alma no mundo fica preza Ás coisas bellas que adorei na vida...