Os sonhos de justiça que, desde Jesus, nos transmittiram as gerações transactas, para lhes darmos cumprimento, hão-de encontral'o nas gerações futuras que, por seu turno, legarão aos seus legitimos herdeiros, novos ideaes e com estes novas esperanças!

Esta é que é a verdadeira glorificação de Deus na Humanidade pela revellação continua e progressiva da Historia!...

Sob este ponto de vista, poder-se-hia dizer que estas duas ultimas poesias não são já a expressão verdadeira do nosso actual modo de pensar e sentir.

AO SOL

Paginas 108 a 111

Escrevemol'a debaixo das impressões dos cantos sagrados da India, no Rig Veda e sob a alta concepção que Renan fazia de Deus e do Sol quando affirmava que antes da Humanidade attingir aquella unidade e synthese suprema das almas, só o Sol tinha tido direito á adoração e culto dos Povos.

Sentimos a seu respeito, por intuição, o que mais tarde a sciencia nos revellou em obras memoraveis como o são alguns dos trabalhos de Flamarion sobre astronomia e designadamente o prodigioso e fascinante livro de Buchner La Lumière et Vie, que nos revellou com uma pujança de saber e de logica inexcedivel, e uma linguagem colorida e vigorosa incomparavel, as incalculaveis maravilhas da natureza que anteviamos com olhos apenas d'um poeta enamorado.

Se escrevessemos este Canto depois da leitura d'estes livros, a nossa linguagem teria sido de certo mais vibratil e as imagens de que nos serviriamos mais vivas e mais bellas.

A idéa fundamental da sua concepção teria ficado, porém, a mesma; a mesma, a nossa admiração, o nosso culto por esse glorioso vivificador dos mundos; por esse prodigioso distribuidor da luz, que, a ter de desapparecer do espectaculo das coisas visiveis, como lh'o prophetisam os seus admiradores e chronistas, o não faria sem deixar atraz de si, n'uma serie ininterrupta de seculos, a mais oppulenta das heranças, a mais genuina glorificação do heroe Bemfeitor por excellencia!

Aos olhos dos outros astros, seus competidores, sob a cupula infinita dos ceus, morreria destituido da sua antiga grandeza, para dar vida e continuação a novos mundos, como Jesus, no Calvario, pregado na cruz, deu a sua alma aos povos para redimil-os!...