Para alguns são estes dous factos dous grandes e execrandos crimes; para outros duas louvaveis virtudes; para nós—dura necessidade, consequencia forçada na realisação de um plano salutar e benefico.

A nobreza e o jesuitismo eram, naquella epocha,{30} os obstaculos gigantes, que se oppunham ao estabelecimento da liberdade.

A nobreza e o jesuitismo, desherdando, espoliando o povo de tudo o que podia tornal-o livre e independente, disputando o poder, a influencia e a preponderancia monarchica, eram estorvo invencivel ao systema representativo, á adopção e reconhecimento legal das garantias constitucionaes e das prerogativas da corôa, que a philosophia politica de seculo, as necessidades do tempo e o exemplo da Inglaterra instantemente reclamavam, cujo disco luminoso começava já a brilhar nos horisontes do futuro em muitos estados da Europa, cuja triangulação havia sido habilmente traçada sobre—a inviolabilidade do rei—a responsabilidade do ministro e a soberania, do povo.

XVI

O Marquez de Pombal queria a liberdade para a patria e para o povo, como a primeira fonte de engrandecimento e prosperidade nacional.

O Marquez de Pombal não phantasiava theorias politicas nem traçava systemas philosophicos; não escrevia pungentes ironias e asperos epigrammas; não{31} defendia e exaltava o protestantismo, para censurar e maldizer a Egreja catholica; não persuadia a revolta nem excitava os povos á pilhagem e á carnificina—concebia medidas uteis e prudentes, e executava-as conforme as circumstancias imperiosamente o exigiam.

A regeneração intima dos homens e das instituições, e não a organisação formal e superficial do systema governativo, foi o seu firme proposito, objecto constante de sua actividade e desvelo, embora para o conseguir fosse necessario dominar o rei, opprimir e desacreditar os nobres, desprestigiar e abater o clero.

Tinha por ventura o rei força, energia, firmeza de vontade, sciencia e coragem para salvar a nação e o povo e detel-o á beira do abysmo, que de dia para dia lhe cavavam profundo tantas causas de ruina?!

Seria bastante robusto o seu braço, poderoso o seu sceptro de oiro, valiosos os diamantes da sua corôa, para poupal-os ao choque revolucionario, que de perto e ao longe se presentia, e que em breve devia abalar a Europa inteira, já consideravelmente agitada pelas pulsações, que violentas se succediam no coração da França e que a faziam estremecer até ás mais affastadas extremidades?!

Qual teria sido o destino do pequeno e então pobre e humilde Portugal, se o não houvessem preparado{32} para resistir á onda revolucionaria, que mais tarde lhe devia passar por sobre as quinas e inundar os seus castellos?!