O despotismo, a tyrannia de que se argúe Pombal, era imposta pelas necessidades, como o unico meio de chegar á liberdade.{47}
Não ignorava por certo este grande homem—que a liberdade e a tolerancia só com a liberdade e com a tolerancia podem solidamente fundar-se no seio de uma nação.
Bem sabia elle—que os partidarios da liberdade e da tolerancia devem deixar o emprego da força aos partidarios da força e da intolerancia.
Mas este conselho evangelico, que só hoje começa a converter-se em preceito obrigatorio, este grande principio theorico, era naquella epocha, attentas as circumstancias, de impossivel applicação na pratica.
O que no seculo XIX em 1868 não pôde realisar a Hespanha, era nos fins do seculo XVIII uma utopia impraticavel em Inglatarra, em França, e muito mais em Portugal.
Os designios do grande estadista e as suas vistas eram patrioticas; o seu ideal a emancipação politica, religiosa, moral e economica do povo, que elle conhecia—grande, opulento e soberano na historia,—pequeno, pobre e escravo no presente; o mobil que o determinava o amor da liberdade.
Sebastião José de Carvalho mostrava em muitos dos seus actos ser no interior da sua alma, no intimo da sua consciencia, pela razão e pelo sentimento, um dos maiores e mais enthusiasticos liberaes do seculo XVIII.
Se não pôde ver executado o seu plano e levar{48} ao cabo tão gloriosa empresa, arremessando para longe a mascara do despotismo, foi porque o não deixaram; foi ainda a reacção, que lh'o impediu, a injustiça que lh'o estorvou.
Despojado do poder, privado da acção governativa, condemnado ao ostracismo politico, exilado para longe da côrte, afastado dos negocios publicos, viu mallograda a sua obra; não lhe embaciaram porem a gloria, não lhe quebraram os brazões, e, o que é de maior valia, não lhe extinguiram a gratidão no coração dos povos; e se ao tumulo baixam esperanças, devia acompanhal-o a lembrança de que um dia as suas ideias haviam de ser realisadas, os seus principios triumphar, e o plano, que lhe absorvera a existencia inteira, posto em plena execução, o seu nome exaltado, a sua reputação glorificada e os seus inimigos, os inimigos do povo e da liberdade, confundidos.
Se ao Marquez de Pombal não permittiu Deos continuar a obra do constitucionalismo, cabe-lhe todavia a bem-merecida gloria de preparar o paiz e os povos para a proclamarem trinta annos depois da sua morte.{49}