FIM

[[1]] Napoleão! que a Providencia parece haver lançado no meio das ruinas, a que a revolução de 1789 tinha reduzido a França, para levantar sobre os destroços do despotismo o dominio salutar e benefico da liberdade!

Os elementos corrompidos, que constituiam uma civilisação, já caduca, enferma e quasi moribunda, foram por ultimo triturados, dissolvidos pela acção candente do vulcão revolucionario, que tinha por principal reagente a liberdade.

A desaggregacão molecular, se assim é licito dizel-o, do monstruoso cadaver do feudalismo, da theocracia e da realeza absoluta, operou-se d'um modo geral e completo no violento e vigoroso impulso, que a força soberana do povo havia desenvolvido.

Familia, patriotismo, cohesão e unidade nacional e politica, religião, amor de dignidade, nobreza de sentimentos elevação de ideias, aspirações de gloria e a propria liberdade... tudo havia desapparecido, abysmando-se em completa desordem e anarchia, na immensa cratera, que a espantosa erupção revolucionaria acabava de rasgar no seio da França.

O imperio, a concentração, o despotismo, a tyrannia das armas, os estragos apparentes da conquista, as invasões ambiciosas d'um homem e do seu numeroso exercito, despertaram e desenvolveram por toda a parte uma nova força de cohesão e affinidade, para reunir os fragmentos dispersos, e dar ao corpo dilacerado consistencia e unidade por meio de um novo arranjo politico, religioso, moral e economico, que lhe assegurasse a existencia e uma vida regenerada e pura.

Do embate de duas forças contrarias, mas tendentes e susceptiveis de formar um dia o equilibrio—da acção descentralisadora da republica e da acção concentradora do imperio, devia mais uma vez resultar a harmonia!

Com a bayoneta e com a espada levava o soldado do imperio o terror e o espanto ao seio das familias nas terras, que invadia e conquistava,—era o instrumento material e automatico do despotismo.

Com a palavra, junto do lar domestico e rodeado d'essa familia, que o recebia, como inimigo e como hospede, narrava os feitos gloriosos da revolução, expunha o seu plano, traçava as suas reformas, bemdizia os seus beneficios, exaltava as suas doutrinas, applaudia o seu triumpho—era o apostolo fervoroso da liberdade, o discipulo intelligente e livre da eschola de 89.

A Constituinte tinha-lhe dominado a intelligencia e o coração; Bonaparte recrutara-lhe apenas os braços e a força muscular.