O acaso e o temporal têm, portanto, de ser banidos dos livros que se occupam do descobrimento da terra de Vera Cruz.

O primeiro e grande historiador que o Brazil teve, ainda hoje o mais sincero e veridico, é Pero Vaz Caminha, o modesto escrivão, que narrou ao rei d. Manoel, numa commovente e encantadora carta, onde a minucia corre parelhas com a simplicidade, a historia da travessia, da chegada e da permanencia de Cabral na terra brazileira.

Nessa longa missiva, escripta de Porto Seguro e datada de 1.º de maio de 1500, o consciencioso historiador dá conta ao seu rei e senhor de todas as peripecias da viagem, desde a partida de Lisboa até ao Brazil e ainda de tudo o que se passou durante os 12 dias em que a frota ficou ancorada em frente á costa brazileira. Persuadido de que o que mais interessaria a D. Manuel era o conhecimento exacto da terra reconhecida, da gente que a habitava, dos seus costumes e indole, das riquezas que possuia e da facilidade que poderia offerecer á colonização, não poupou minucias para pôr o rei ao corrente do que vira e do que lhe poderia ser proveitoso.

É assim que elle descreveu com enthusiasmo e cores vivas o esplendor da natureza brazileira, a frescura, abundancia e potabilidade das nossas aguas, a brandura do clima, a belleza do nosso céo, onde rutilava o cruzeiro, referindo-se com interesse e insistencia á indole pacifica dos nossos indigenas, aos seus habitos e costumes, á belleza das suas formas, á sua completa innocencia, deprehendida da sua completa nudez, e á facilidade com que acceitavam a cathechese, parecendo-lhe empresa de pequeno esforço fazel-os christãos, chamando-os ao gremio da egreja. Tratando dos productos naturaes, descreveu a fauna e a flora que encontrou, accentuando que os incolas, haviam dado demonstrações evidentes aos da frota de que em terra havia ouro, prata e papagaios.

Descrevendo o que fizeram os indigenas, que acudiram á praia, quando das naus partiram as primeiras almadias para o transporte de agua, diz que «os indios logo trouxeram cabaças e tomavam alguns barris que nós levavamos, enchiam-os de agua e traziam-os aos bateis».

Este trecho da carta de Caminha prova que a frota cabralina começou logo por fazer aguada e prova tambem que os indigenas vinham offerecer agua aos homens brancos, como se já estivessem habituados a praticar esse serviço, repetindo actos praticados anteriormente; o que demonstra que não era a primeira vez que viam homens brancos e naus.

A facilidade com que alguns dos naturaes se deixaram capturar e levar a bordo da nau capitanea, alli permanecendo e dormindo tranquilamente durante uma noite, como narra Caminha, prova ainda que os nossos indigenas já estavam familiarizados com os europeus, que já os conheciam, que conheciam os seus habitos e costumes, que delles não tinham receio.

E isso é ainda uma prova indirecta de que os portuguezes já haviam estado no Brazil antes de Cabral aqui chegar. E, de facto, cá estiveram, porque já aqui estava João Ramalho, que havia chegado 10 annos antes e que tanto facilitou a missão de Martim Affonso, quando este aportou á antiga capitania de S. Vicente.

Ao primeiro monte que avistou deu Cabral o nome de Monte Paschoal, á terra o nome de Vera Cruz, porque no céo rutilava o cruzeiro, e ao porto, onde definitivamente fundeou, o de Porto Seguro. Chegou o domingo de paschoela, e, narra Caminha, que o capitão mór deliberou ouvir missa e sermão em um ilhéo de Porto Seguro. Logo alli se armou o altar e frei Henrique de Coimbra officiou, cercado de todos os padres da frota. Foi essa a primeira missa, de que temos noticia exacta e circumstanciada, dita no Brazil, que forneceu assumpto para um dos mais bellos e suggestivos quadros de Victor Meirelles. Terminada a missa, frei Henrique subiu a uma cadeira alta, que lhe serviu de pulpito e dahi prégou, fazendo a historia do Evangelho, descrevendo a travessia e pondo a terra reconhecida por Cabral sob a protecção da Cruz. Á missa e ao sermão assistiram os naturaes que ao ilhéo acudiram e que ao depois, folgaram, fraternizando com os tripulantes da frota. Na nau capitanea discutiu-se depois se conviria tomar dois indigenas para envial-os ao reino, ou se seria preferivel deixar entre elles alguns degredados, sendo por grande maioria, adoptado de preferencia este ultimo alvitre, pois os degredados, ficando alli, apprenderiam a lingua dos naturaes e poderiam servir de interpretes, quando o rei mandasse nova frota ao Brazil para o colonizar; accresce que era do plano de Cabral, como foi mais tarde do de Martim Affonso, não hostilizar os indigenas, não lhes incutir desconfiança alguma, tratando-os com carinho e brandura, sem os violentar jámais, para assim não sahir dos preceitos da caridade christã e tel-os sempre como alliados. Para os ir habituando á vida com os brancos, que deviam ficar definitivamente com elles, foram logo enviados á praia e ahi deixados dois degredados, que deviam passar a noite com os naturaes; mas estes, sem os molestar, coagiram-nos a voltar ás naus. Quando os da frota ergueram num ponto elevado da costa, dominando o mar, a primeira cruz, que ficou em terra brazileira e que confirmou o nome de Vera Cruz, que Cabral lhe havia dado, os indigenas auxiliaram depois á abastecer as naus de lenha e de agua. E quando a maruja beijou a cruz erguida, os indios tambem a beijaram, pondo-se de joelhos, gestos que levaram Caminha a affirmar «que era gente de tal innocencia que, se os intendessemos e elles a nós, seriam logo christãos, porque, segundo parece, não têm nenhuma crença». E accrescenta, logo depois, na sua luminosa carta ao rei: «se os degredados, que hão de ficar, aprenderem bem a sua fala, não duvido, segundo a santa tenção de vossa alteza, fazerem-se christãos e crerem a nossa santa fé á qual praza Nosso Senhor que os traga, porque decerto esta gente é boa e imprimir-se-á ligeiramente nelles qualquer cunho que lhe quizerem dar... e, portanto v. alteza, pois tanto deseja accrescentar na santa fé catholica, deve entender na sua salvação, e prazerá a Deus que com pouco trabalho será assim.»

Prova este trecho de carta do escrivão da frota que elle conhecia a tenção do rei, que sabia que o seu intento era chamar os naturaes das terras, por onde passasse a frota, ao gremio da egreja e que, ao contrario do que fizeram Colombo, Pinzon, Hojeda, Lepe e outros, era do seu programma assegurar a posse da terra reconhecida, conquistando os naturaes pela brandura e carinho, incutindo-lhes a fé christã.