Dir-se-ia que, desde 1500 até ha pouco, vivestes acorrentados, manietados, sem poder dar expansão ao vosso genio irrequieto e aventuroso, sem poder tirar partido das conquistas feitas com tanto sacrificio e perigo.
Raiou para vós agora a aurora da liberdade com a proclamação da Republica em vossa terra.
Uma nova era, promissora e fecunda, apresenta-se, durante a qual podeis resgatar os erros de quatro seculos e achar as energias precisas para conquistar o antigo esplendor.
Vejo-vos, com pesar, divididos nos campos maninhos da politica esteril, da politica dissolvente dos partidos. Que quereis obter com a lucta perturbadora neste momento em que a vossa patria mais precisa de paz, de dedicações e de tino? A reconquista de um regimen que vos amesquinhou, que vos empobreceu, que vos fez descer do alto da columna onde já estivestes erguidos, dominando o universe? A reconquista de um regimen que vos deu o jugo da Hespanha, por 60 annos, a vergonha da fuga da vossa familia real e da sua côrte para o Brazil, e o abandono da vossa patria á invasão estrangeira? a reconquista de um regimen que vos deu o vergonhoso «ultimatum» de 1890? Sois ainda hoje os depositarios de dois legados sagrados, que vos deixou o creador fecundo da Escola de Sagres e o grande épico, que, em verso estridente, cantou as vossas glorias e descortinou ao mundo o vosso saber e as vossas gloriosas jornadas.
Que quereis fazer dessa herança, levando-a á labareda das vossas disputas domesticas? Enfraquecer mais a patria, desprestigial-a, deixar que, considerada ingovernavel, vá parar ás mãos do estrangeiro, ávido e cobiçoso, que já pensa como repartir entre si o precioso legado do previdente infante? Não, não! Deixae o velho regimen sepultado nas trévas do passado, cessae as vossas luctas fratricidas, e, unidos todos, em blóco, trabalhae pela rehabilitação do vosso formoso paiz, pela consolidação das suas actuaes instituições, sendo sempre portuguezes, mais portuguezes ainda no regimen da democracia e da liberdade, sendo sempre os briosos descendentes de d. Henrique, que mandou a descobrir esta formosa terra que, em vinte annos de Republica, tem avançado sempre e tem sabido sempre impor-se ao respeito e á admiração das potencias.
Tenho dito.