É com esse fanal em punho, que dá por terra com todas as lendas, todos os erros e embustes dos historiadores que precederam o sr. Fonseca, que eu venho, hoje, na medida das minhas fracas forças, ajudal-o a reivindicar para Portugal, não a gloria de haver descoberto o Brazil sómente, mas tambem a gloria de haver descoberto a America.

Oxalá seja esse meu auxilio efficaz, oxalá possa elle levar a convicção ao animo dos que me ouvem e dos que me lerem, para que possamos dizer todos, una voce, e fazendo a justiça tardia a que tem direito a velha civilização portugueza: Gloria a Portugal, descobridor do Novo Mundo!


Os conhecimentos geographicos dos antigos eram limitadissimos, não conhecendo os europeus mais do que duas terças partes do seu continente, o norte da Africa e o sudoeste da Asia, acreditando Ptolomeu que a Africa se estendia até ao polo antarctico, reduzindo assim o Oceano Indico a um simples lago ou pequeno mar interior. Nessa época, o que se chama India comprehendia a Indo-China, o Indostão, as ilhas e regiões do extremo Oriente. Era a India considerada como um paiz de fabulosas riquezas e nella dizia-se que habitava o Prestes João, soberano Christão, que reunia o poder temporal ao espiritual e era o summo pontifice do Oriente.

O Oceano Atlantico era tratado por mar tenebroso e considerado innavegavel, povoado por monstros, coalhado de escolhos, coberto de nevoa densa. Era um mar onde, para uns, reinava a eterna calmaria podre, para outros, era constantemente açoutado por violentos tufões, de sorte que era uma barreira á communicação entre os dois hemispherios.

Não contentes de limitar a tão pouco os seus conhecimentos geographicos, os antigos inventavam lendas, semeavam o oceano de ilhas imaginarias, de estatuas e de columnas, que impediam os navegantes de marchar.

As columnas de Hercules fechavam o caminho do Atlantico, outras duas columnas erguiam-se num estreito, impedindo a entrada do mar da India. A phantasia não tinha diques e os mappas, principalmente o de Marco Polo, marcavam milhares de ilhas em algumas das quaes se localizava o paraiso, o purgatorio e o inferno! Na ilha de Salomão, onde se dizia estar o cadaver desse rei mulherengo, num maravilhoso palacio, tres estatuas faziam retroceder o navegante sob pena de morte. O cabo Bojador era um ninho de serpentes e na ilha de Ceylão estava o tumulo de Adão!

Ainda em 1375 a costa africana só era conhecida de Ceuta até ao Cabo Bojador, e ainda em 1436, já em pleno seculo XV, o mappa de André Bianco, um mixto de christianismo e de paganismo, reproduz as lendas e figuras da edade média, collocando Jerusalém no centro do mundo e determinando o local do paraiso terrestre!... Toda a terra conhecida resumia-se num unico continente. Tudo mais eram ilhas entre as quaes estava a de Cypango, onde Colombo julgou ter chegado em 1492, quando aportou ás Antilhas.

Lendas de origem portugueza só havia duas—a do gigante Adamastor, no Cabo das Tormentas, que o grande épico dos Lusiadas tão lindamente narrou em verso sonoroso, e a do cavalleiro de pedra, na ilha do Corvo—mas este, ao contrario dos outros que intimavam o navegante a retroceder, mandava-o avançar, apontava-lhe o caminho a seguir, demandando novas regiões.