VI.
E vós, Fernan Gonçalves, segurança
Das festas de Lyeo em esta idade,
Podeis atravessar com confiança
Quantas adegas ha n'esta cidade:
Vós, mano, nosso amor, nossa esperança,
A quem só promettemos lealdade,
Pois Baccho a nós vos deu por cousa grande,
Seja a medida assim de quem a mande.
VII.
Vós só tendes o ramo florescente
Da arvore de Cybele mais amada,
Que nenhuma nascida em Benavente
Ou pelo rio abaixo até Almada.
Vêde-o nas toalhas, que presente
Vos mostra a bebedice já passada,
Nas quaes vivas lembranças vos deixou
O que de vinho mais se carregou.
VIII.
Vós, alto taverneiro, cujo imperio
O bebado em se erguendo vê primeiro,
Ou beba n'este nosso hemisferio,
Ou beba lá n'esse outro derradeiro:
E nem por isso sente vituperio
O fidalgo, o estudante, o cavalleiro,
Antes o Turco, o Mouro, e o Gentio
Lhes pêza não beber do vosso rio:
IX.
Inclinae por um pouco a magestade,
Que no azamboado rosto vos contemplo,
Quando fordes c'os mais d'esta cidade
Offertar-vos a Baccho no seu templo:
Os olhos da real bebecidade
Ponde no borrachão, vereis exemplo
De amor de vossos vinhos saborosos
Por bebados louvados espantosos.
X.
Então vereis se sois bem conhecido
De todos os amigos de Falerno;
Que não é pouco ser obedecido
No estio, primavera, outono, inverno:
Ouvi, vereis o nome engrandecido
D'aquelles de quem sois senhor superno;
E julgareis qual é mais excellente
Se ser do mundo rei, se de tal gente.