Mas, da humana Carreira inda no meio,
Se a débil flor vital sentir murchada
Por Lei que envôlta na existencia veio;

Co'a mente pelos Ceos toda espraiada,
Direi, de Eternidade ufano, e cheio:
«A Deos, ó Mundo! ó Natureza! ó Nada!»

+SONETO III.+

Pela voz do Trovão Corisco intenso
Clama, que á Natureza impéra hum Ente,
Que cinge do áureo Dia o véo ridente,
Que véste d'atra Noite o manto denso.

Pasmar na Immensidade he crer o Immenso:
Tudo em nós o requer, o adora, o sente.
Próvão-te olhos, ouvidos, peito, e mente?
Numen! Eu oiço, eu olho, eu sinto, eu penso.

Tua Idéa, ó Grão Ser, ó Ser Divino,
Me he vida, se me dão mortal desmaio
Males que soffro, e males que imagino.

Nunca Impiedade em mim fez bruto ensaio:
Sempre (até das Paixões no desatino)
Tua Clemencia amei, temi teu Raio.

+SONETO IV.+

Caro a Fébo, a Filinto, a Lysia, á Fama,
Na Lácia Fonte, e Argiva immerso Alfeno [15],
Pelas Deosas Irmãas fadado Ismeno [16],
Em que he Numen Razão, Verdade he flamma:

Canóro Melibêo [17], por quem derrama
Invéja, e Glória o néctar, e o veneno;
Filósofo Cantor, meu doce Oleno [18],
Doce ao Sócio infeliz, que em ais te chama!