VI
Mas é preciso que subtil e hardido
Primeiro excites a attenção de Tyrse.
Com gesto alegre teu amor exprime,
Falem teus olhos, todo o corpo fale;
Mudo lhe dize que te assombra, e pasmam
Do seu semblante a formosura, e a graça.
Ora de espanto se amorteça a face,
Ora se accenda com venereo fogo:
O mesmo effeito teus contrarios fazem,
Todos o orgulho mulheril incensam:
O forte sexo para si reserva
De Phebo os louros, de Mavorte as palmas.
Em carros triumphaes nunca viu Roma
Matrona illustre de Cesarea casa;
Sós d'entre a chusma mulheril as Musas
Á sombra dormem de Apollineos louros;
Ao sexo lindo só agradam myrthos,
Verdes arbustos, que cultiva Venus.
Só d'entre a chusma varonil Cupido
Da Cypria deusa pode entrar no templo:
A porta guardam Furias irritadas,
Que em vez de lanças arrepellam serpes,
Com dente venenoso rasgam, mordem
Alheio sexo, que arrostal-as ousa.
Posto que fosse lindo o amor de Venus,
Morreu da sua mordedura Adonis;
Provando a furia da raivosa Alecto,
Foi convertido em tenra flor Narciso.
VII
Mas onde corre meu batel ligeiro!
Ferrando a vela para traz voltemos.
Mancebos, que me ouvis, sabei sómente
Que n'este laço se surprehendem todas.
Se acaso entrasse n'esta rêde de ouro
Lucrecia mesma ficaria presa;
Não seria Penelope tão casta,
Se os seus amantes lhe chamassem bella.
Esta gloria sómente querem todas,
Com fervoroso ardor todas a buscam:
Nem sobre as margens do Euphrates Cesar
Mais pela gloria marcial suspira.
Apraz a Venus variar de forma,
Tambem Cupido de ser vario gosta;
Um gesto sempre doce se abhorrece,
Ás vezes vale muito um desagrado.
VIII
De teu rival, mancebo, nota o modo,
E tu sempre diverso modo segue:
Não basta ser sómente amante novo,
É tambem necessaria nova forma.
Se elle inquieto namora, tu sisudo,
Se indecente se mostra, tu modesto;
Se triste se apresenta, tu alegre;
Se acanhado se mostra, tu mais livre;
Mas toma sempre virtuoso gesto,
Só lhe pareça teu amor franqueza.
Não ha no mundo tão lascivo monstro
Que a virtude não preze mais que o vicio;
E julga sempre a feminina turba
D'elles alheio quem se mostra casto:
A flamma do Ciume tambem queima,
E torra brandas mulherís entranhas;
Nem vibora raivosa, que pisada
Do vago caminhante se exaspera,
Nem besta furiosa, em cujas fauces
O nú selvagem crava a setta aguda,
Mais iradas se accendem, do que a turba,
Quando ciosa se exaspera, e arde.
O ciume foi ferro, a cujo golpe
Banhou teu sangue, oh forte Pyrrho, as aras,
Foi elle a chamma, que abrasou Semele:
Em feroz urso transformou Calixto;
(Eu mesmo, eu mesmo… Mas a dôr me impede,
Tu, suberbo rapaz da Idalia, o dize!
Ah! formosa Corinna! Não te engano,
Só me abraso por ti, só por ti morro!…)
Porém sulquemos novos mares, fuja
Nosso veloz batel longe da praia.
IX
Mancebo, deixa o teu rival; só cuida
Em combater da bella Tyrse o peito.
Do theatro se corre o largo panno,
Aberta a scena principia o drama.
Temerario, não deves ver tranquillo
Da peça theatral o sabio jogo:
É Cupido rapaz, não tem socego,
Não perde a occasião o que amor busca;
Para os olhos de Tyrse te encaminha,
N'elles a scena figurada nota;
Se por acaso lagrimas derrama
Tu de pranto tambem as faces banha;
Finge ao menos secar com alvo lenço
O terno pranto, que verter não podes;
Se irritada parece, toma fogo,
Se com assombro pasma, tu te assombra.