Quanto gratas me são as tuas letras
Querida Alzira! Ao coração me falas!
As tuas expressões meigas occultam
Em si virtude tal, que apenas lidas
D'ellas a alma se apossa sequiosa:
Tu és, presada amiga, unico archivo
Aonde os meus segredos mais occultos
Eu vou depositar: em ti encontro
O refrigerio a males, que tolero,
Sem poder conhecer a sua origem.
Se bem me lembro, outr'hora de ti mesma
Ouvi eguaes queixumes, não sabendo
Nem eu, nem tu, donde elles procediam.
Uniu-te a sorte a Alcino, e venturosa
Sempre te ouvi chamar desde esse tempo.
Cessaram os teus males, eu os sinto…
A edade é (dizes tu) a causa d'elles;
Ah! Que extranha linguagem! Não concebo
Porque falas assim; pois traz a edade
Males, nos tenros annos não provados?
Tres lustros conto apenas: tu tres lustros
Antes de te esposar tambem contavas;
Poz o consorcio a teus lamentos termo,
Limitará os meus? Ah! dize, dize
Tu, que desassocego egual soffreste,
O seu motivo, e como o apaziguaste:
Revela á tua amiga este mysterio
D'onde sinto pender o meu repouso.
Eu não exp'rimentava o que exp'rimento:
Os meus sentidos todos alterados
Uma viva emoção põe em desordem.
Cala-me activo fogo nas entranhas:
O coração no peito turbulento
Pula, bate com ancia extranhamente:
O sangue, pelas vêas abrasado
Parece que me queima as carnes todas:
A taes agitações languidez terna
Succede, que a meus olhos pranto arranca,
E o coração desassombrar parece
Do peso da voraz melancholia.
Té mesmo a natureza tem mudado
A configuração, que eu d'antes tinha:
Vão-se augmentando os peitos, e tomando
Uma redonda fórma, como aquelles
Que servem de nutrir-nos lá na infancia.
D'outros signaes o corpo se matiza
Antes desconhecidos: alvos membros,
Lisos té'qui, macúla um brando pello,
Como o buço ao mancebo, á ave a penugem.
Sobresalta-me d'homens a presença,
Elles, a quem té agora indifferente
Tenho com affouteza sempre olhado!
Ao vêl-os o rubor me sobe ao rosto,
A voz me treme, e articular não posso
Sons, que emperrada a lingua não exprime.
Sinto desejos; que expressar me custa;
Amor… E como a idéa tal me arrojo?
Será talvez amor isto que eu sinto?
Já tenho lido effeitos de seus damnos;
Mas esses, que o seu jugo supportaram,
Tinham com quem seu peso repartissem,
Tinham a quem chamavam doce objecto,
Quem a seu mal remedio suggerisse.
Isto era amor; mas eu amor não sinto;
A doce inclinação, que dous amantes
Um ao outro consagram, desconheço.
Sim; dos homens a vista lisonjeira
É para mim; nenhum porém me prende;
Não sei que chamma interna me affoguêa…
Amor isto será? Alzira, fala,
Fala com candidez á tua amiga;
Ensina-me a curar a funda chaga,
Que internamente lavra por mim toda:
D'estas agitações, que me flagellam,
Mostra-me a causa, mostra-me o remedio:
Tu tiveste-as tambem, já não te avexam,
Mostra-me por que modo as terminaste.
Talvez do que te digo farás mofa…
Ah! vê que por meus labios a innocencia
Comtigo é quem se exprime; tem dó d'ella,
E se os meus sentimentos são culpaveis,
Dize-m'o, que abafados em meu peito
Serei victima d'elles; se extinguil-os
Os meus exforços todos não podérem,
Comigo hão de morrer, findar comigo.
[EPISTOLA IV.
ALZIRA A OLINDA.]
Com que satisfação, com que alegria
Vejo da minha Olinda as ternas letras!
Retrato da innocencia, me affiguras
O que por mim passou, extranho effeito
De um coração sensivel, não manchado
Ainda pela mão da iniquidade.
Fala, não temas exprimir-te, Olinda,
Que se culpavel fores de outrem aos olhos,
Aos meus és innocente, e assim te julgo.
Da inviolavel lei da Natureza
A que sujeita estás, bem como tudo,
Nascem, querida amiga, os teus transportes:
Só provém d'ella, é ella que t'os causa;
Ella os mitigará em tempo breve,
Dando-te próvida um remedio activo.
A triste educação, que ambas tivemos,
Mais desenvolve os ternos sentimentos
Dos que amar só procuram, e não podem
Na solidão senão atormentar-se.
Do recato das filhas temerosos
Pensam os rudes paes, que em sopeal-as
Alcançam extinguir o voraz fogo
Que sopra a Natureza, e que ella atêa.
Nescios, de amor lhe formam attentados,
Que o coração desmente, e que não pode
Saber justificar a razão mesma.
Benignas emoções chamam flagicios,
Que infernaes penas castigar costumam;
Sem que atinem o modo por que devam
Tornal-as puras, e do crime alheias,
Porque do crime o amor não diff'rencêam,
Amor, e crime o mesmo lhes figuram.
Ah! que de um pae o emprego não tolera
Maximas impostoras, vís idéas
Que religião não soffre, e que forcejam
Para co'a religião auctorisal-as.
Saiba-se pois té onde o culto, a honra
De um Deus se estende, e quaes limites devem
Marcar-se ás impressões da natureza:
Em vez de afferrolhar as tristes filhas,
Busquem mostrar-lhes da virtude a senda,
Do vicio a estrada com desvelo attento.
Pois que impureza, e amor um rumo seguem
Consiste o mal ou o bem na escolha d'este.
Sim, chara Olinda: como tu, eu propria
Falta da sociedade, porque n'ella
Viam meus paes o escolho da innocencia,
As mesmas emoções senti outr'hora;
Nos tenros annos teus então zombavas
Do que nem mesmo decifrar podias.
Quantas vezes meu coração ás claras
Te descobri, querida; e quantas vezes
O meu desassocego não provando,
Rias dos sentimentos, que em minh'alma
Entranhados estavam, sem que a causa
D'elles jámais me fosse conhecida?
Agora os exp'rimentas, crês agora
O que falso julgaras, verdadeiro!…
A Natureza em ti o germen lança,
Que a ajudal-a te incita: Amor te inflamma,
Porque sensivel és; e bem que hesites
Sobre o objecto, que deve contentar-te,
Ella t'o mostrará em tempo breve.
Não te assustem do seu dominio as forças,
Porque de jugo seu o peso é leve.
Não mais soffres fervidos desejos,
Que o coração te ancêam, e bem podem
A languidez eterna victimar-te,
Se de amor o remedio os não sacia.
Attenta sobre mil louçãos mancebos,
Cheios de encantos: olha-os indulgente,
E d'entre elles escolhe um, cujo peito
Tão docil como o teu seja formado.
Olinda, ama; conhece que delicias
Amor encerra, amor, alma de tudo;
Amor, que tudo alenta, e que só causa
Os gostos de uma vida abbreviada.
Se contra amor dictames escutaste,
Que seus effeitos pintam horrorosos,
Não dês credito a maximas fingidas,
Que a lingua exprime, e o coração reprova:
Que mal provém aos homens, de que unidos
Dois amantes se jurem fé, constancia?
Que um ao outro se entreguem, e obedeçam
Da Natureza ás impressões sagradas?
Rouba a virtude acaso a paixão doce
Que beijos mil só farta, e que só pode
Nos braços de um amante saciar-se?…
Não; amor a virtude fortifica:
Mais a piedade sobre as desventuras
Que os outros soffrem, mais a humanidade
Em nós se augmenta, quando mais amamos.
Se desde o berço em nós força indizivel
Sentimentos de amor vai radicando;
Se, mal balbuciamos, quanto vemos
A falarmos de amor nos estimula;
Se a edade vai crescendo, e a natureza
Nossas feições altera; assignalando
Com marcas bem sensiveis, que chegámos
Ao prazo, em que é lei sua amar por força,
Ou desnegar então nossa existencia:
Se tudo a amar convida, e nos impelle,
Quem ousa amor chamar crime execrando?..
Ah! deixa, Olinda, deixa que alardêem
Virtude austera hypocritas infames:
Sabe que, em quanto amor horrivel pintam,
Em quanto aos olhos teus assim o afêam,
De uma amante venal nos torpes braços
Vão esconder transportes, que os devoram,
E, por castigo seu, sómente gosam
Emprestadas caricias, vís affagos.
Mas quando assim os homens dissimulam,
Para dissimulares te dão direito:
Finge, como elles; ama, e lh'o disfarça;
Que é mais um gosto amar ás escondidas.
Affecta, embhora, affecta sisudeza
Já que a affectar te obrigam, e em segredo
De instantes enfadonhos te indemnisa:
Zomba dos seus ardís, e estratagemas;
Dize, entre os braços de um amante charo,
Que mais credulos são, do que te julgam,
Se crêem nos laços seus aprisionar-te.
Se os deleites de amor são só delictos
Quando sabidos são, com veo mui denso
A perspicazes olhos os encobre:
Vinga-te d'esses, que abafar procuram
As doces emoções, que n'alma sentes.
São estes os conselhos de uma amiga
Que os bens te anhela, que ella saborêa.
Sabe, por fim, que quanto mais retardas
Tão ditosos momentos, sem gosal-os;
Quanto mais tempo perdes ociosa
Sem às vozes de amor ser resignada,
Tanto mais tempo tens de lastimar-te,
Por não têl-o em amar aproveitado.
[EPISTOLA V.
OLINDA A ALZIRA.]
Alzira, sou feliz!.. Quanto te devo!…
Das tuas instrucções é tal o fructo.
Quanto encarava em torno era a meus olhos
De lugubres idéas feio quadro:
Tudo o que vejo agora alegres, vivas,
Imagens prazenteiras, me suscita.
Os ternos sentimentos, que provava,
Mil vezes combinando com dictames
Que desde a infancia sempre m'inspiraram;
Mil vezes reflectia que dos homens,
Ou de um tyranno Deus era ludibrio:
Conceber não podia que existisse
Para experimentar contínua lucta
Entre impressões da propria natureza,
E principios chamados da virtude.
No pélago de embates tão terriveis
Fluctuando implorei o teu auxilio;
Meu coração te abri: tu leste n'elle
O que eu nem mesma deslindar sabia.
Tu me ensinaste a ver quanto fingidos
Os homens são, nas vozes, e nos gestos:
Rasgaste aos olhos meus mascara infame
Com que têem de uso todos encobrir-se;
Das bordas me salvaste de um abysmo,
Onde a infeliz Olinda ia arrojar-se,
Perdôa, Deus immenso! Eu blasphemava
Contra a tua justiça; eu te suppunha
Auctor do mal, que os homens machinavam;
Cria-te inconsequente, e despiedado,
Pois sentimentos me imprimiras n'alma
Que ás tuas leis contrarios me pintavam!…
Tu foste, Alzira, foste a que lançaste
Um brilhante clarão ante os meus passos…
Finalmente aprendi que a singeleza
Do mundo era banida, e o seu imperio
Os homens tinham dado á hypocrisia.
Ruins!… Amor por crime affiguravam,
E nem um só de amor vivia isempto!…
Para elles não é crime um crime occulto,
Porque a simulação reina em sua alma,
Porque o remorso abafam em seu peito.
Amor um crime!… Os gostos mais completos,
E os mais puros deleites o acompanham:
Se a ventura maior se une ao delicto,
Quem ha que se não diga delinquente?
D'entre as delicias, que gosei, querida,
Com as tuas lições fugiu o crime.
Eu não senti no coração bradar-me
A voz d'esse pezar, sequaz da culpa:
No meio dos prazeres, que gostava,
Graças rendi a um Deus, que m'os concede:
Se elle troveja sobre os criminosos,
Nunca os seus raios menos me assustaram!…
Um amante acabou o que encetaste;
Elle, cujo olhar meigo me assegura
As doces qualidades, que o adornam,
Affastou-me do espirito receios,
Que de mau grado combatia ainda.
Reinava em seus discursos a franqueza,
E o fogo, que brilhava nos seus olhos,
Que o rosto lhe incendia, em seus transportes
Que eram nascidos d'alma, me dizia:
O labéo da impostura o não denigre;
Não é como o dos outros seu character;
Ingenuo, affavel, ah! prezada Alzira!
Se tão amavel é o teu Alcino,
Ninguem como eu e tu é tão ditoso!…
Pouco preciso foi para vencer-me:
Não teve que impugnar loucos caprichos,
Com que ufanas amantes difficultam
O mutuo galardão, que amor exige:
Se amor ambos int'ressa, e ambos colhemos
Seus mimosos favores, porque causa
Havia de indiff'rença dar indicios,
Quando o meu peito, ancioso, palpitava?
Se eu o levava da ventura ao cume,
Não me dava elle a mão para seguil-o?
Sim; nos seus braços, me arrojei sem custo;
E se o pudor as faces me tingia,
Inda as chammas d'amor mais me abrasavam.
Eu nadava em desejos indiziveis;
E quantos beijos recebia, tantos
Cheios de egual fervor lhe compensava:
Seus labios inflammados ateavam
As doces labaredas, em que ardia,
E meus labios, aos labios seus unidos,
Sensações recebiam deleitosas,
Que me filtravam pelo corpo todo…
Tão grandes emoções exp'rimentava,
Que a tanto gosto eu mesma succumbia!
Presa a voz na garganta, não sabendo
Nem já podendo articular palavra,
Respirando anciada, e com vehemencia,
Os meus sentidos todos confundidos,
Sem nada ouvir, nem ver, apenas dando
Signaes de vida, de prazer morria.
Excepto o meu amante, em taes momentos
Longe da idéa tinha o mundo inteiro:
O mundo inteiro então forças não tinha
Para do meu amante desprender-me.
Debalde ante meus passos furibundo
Monstro espantoso vira: em vão lançara
Do aberto seio a terra ondas de fogo;
Em vão coriscos mil o céo vibrara;
Dos braços do amante em taes momentos.
Nada, nada podia arrebatar-me.
Oh quem podéra, Alzira, descrever-te
Que extasi divinal veiu pôr termo
A taes instantes de suaves gostos!…
Isto pode sentir-se, e não dizer-se…
Agora, e só agora me parece
Que começo a existir: reproduziu-se
Uma total mudança na minha alma.
O mundo para mim já tem encantos;
Sob outras côres vejo mil objectos,
Que a phantasia me pintou tristonhos:
Propicio Amor abriu-me os seus thesouros,
A Natureza seus thesouros me abre:
Tudo te devo, amiga; em todo o tempo
A teus doces conselhos serei grata:
Oxalá ditas tantas saborêes
Quantas por ti, querida, eu propria góso!
Oxalá sintas com Alcino os gostos,
Que eu exp'rimento, de um amante ao lado!
Nem ventura maior posso augurar-te,
Porque maior ventura haver não pode.
[EPISTOLA VI.
ALZIRA A OLINDA.]
A temerosa Olinda é quem me escreve?
É este o seu pudor, sua innocencia?
Ah! Que as minhas lições tão bem acceitas,
Dão-me a ver que a discipula inexperta
Ha de em breve ensinar a propria mestra.
Olinda não sabia o que excitava
Dentro em seu coração ternos impulsos,
Que tanto a angustiavam… Não sabia
Qual d'extranha mudança em suas fórmas,
Em seus membros gentís a causa fosse!
A voluptuosa Olinda, devorada
Do mais activo fogo, ingenuamente
Consulta a sua amiga, e a um leve aceno
Corre a engolphar-se na amorosa lida.
Basta um momento a transtornal-a toda!
E porque de tão prospero successo
Pretendes, tu, querida, dar-me a gloria?
Não, não fui eu; sómente a natureza
Sabe fazer tão subitos prodigios:
Como depressa ao mal, que te inquietava,
Próvida suggeriu remedio activo!
Como de uma boçal, incauta virgem
Uma amante formou tão extremosa!
A agradavel pintura, que bosquejas,
Dos férvidos transportes, que sentiste
Entre os braços do amante afortunado,
Não é, querida Olinda, tão sincera,
Como sincera foi a que traçaste
De ignotas emoções a Amor sujeitas.
Já não te exprimes com egual candura:
Filha da reflexão nova linguagem,
Por artificio mascarada em lettras,
Vejo, que annunciar-me antes procura
Apoz do que se ha feito o que se pensa,
Do que por gradações d'acção o int'resse
Pouco a pouco esmiuçar, dar-me a ver todo.
Rasga o pudico véo, com que debalde
Aos olhos de uma amiga esconder buscas
Voluptuosas traças, que transluzem
Nas tuas expressões; quando innocente
Menos recato n'ellas inculcavas,
Eu lia com prazer dentro em tua alma
Os sentimentos, que a affectavam todos.
Tenho direito agora a exigir-te
A ingenua confissão d'esses momentos
Preludios do prazer, em que te engolphas.
Quero saber porque impensados lances
D'um amante nos braços te arrojaste;
Como o pudor fugiu, e o que sentiste
Quando, abrasada em férvidos desejos
Misturados com dôr indeffinivel,
De amor colheste attonita as primicias,
E provaste entre gostos, e agonias
O que uma vez, não mais, pode provar-se;
Tens um amante; eu sou a tua amiga;
Elle te dá prazer, d'ella o confia:
Gosta os momentos, que gosar não podes,
Do goso em recordar puras delicias:
Nem todo o tempo a amor pode ser dado.
A mór ventura, que o mortal encontra,
Seja embhora infeliz, ou desgraçado,
É lembrar-se que foi já venturoso;
E o não desesperar de sêl-o ainda,
Um termo aos males seus põe muitas vezes.
Alzira foi do teu prazer motora,
A gratidão te obriga a dar-lhe a paga.
É nobre o meu int'resse, e não mesquinho;
Pago-me d'escutar as tuas ditas,
E cedendo a meus rogos falso pejo,
Saiba eu teus momentos deleitosos.
Mas vê que o sacrificio, que te peço,
Eu propria generosa abro primeiro:
Primeiro eu quero timidos receios
Calcar aos olhos teus; entra em mim mesma,
Vê como reina Amor dentro em minh'alma!
Como só elle faz meus gostos todos!
Chamem embhora apathicos estoicos
Ardores sensuaes os que me inflammam;
Chamem-me torpe, chamem-me impudica;
Taes vilipendios valem o que eu góso!
Venha a rançosa, van theologia
Crimes fingir, crear eternos fogos;
Eu desafio os seus sequazes todos,
Eu desafio o Deus, que elles trovejam!
Nos mais puros deleitos embebida,
Bem os posso arrostar, posso aterral-os!
Não estremeças, não amada Olinda;
Longe do Fanatismo a turma odiosa,
Que infames leis, infames prejuizos,
Quaes cabeças fataes d'hydra indomavel
Para o mundo assolar tem rebentado:
Não ha para os christãos um Deus diff'rente
Do que os gentios têem, e os musulmanos:
Dogmas de bonzos são condignos filhos
Da fraude vil, da estupida ignorancia,
Da oppressora politica productos.
O que Razão desnega, não existe:
Se existe um Deus, a Natureza o off'rece:
Tudo o que é contra ella, é offendel-o.
A solida moral não necessita
De apoios vãos: seu throno assenta em bases,
Que firmam a Razão, e a Natureza.
Outra vez eu farei que estes dictames
Com seguros principios sustentados,
Destruam tua credula impericia;
Abafando illusões, que desde a infancia
Te lançaram na mente inculta, e frouxa,
Que Furias tem, que tem Dragões, e Larvas
Para os gostos da vida atassalhar-te,
Para a remorsos vís dar existencia.
Por ora segue o culto, que te apontam
As emoções da propria Natureza:
Sê religiosa e firme em pratical-as.
O meu Alcino, a quem eu devo tudo,
N'um momento desfez o que em tres lustros
Nescios paes procuraram suggerir-me.
Por habito adoptei de uns a doctrina,
Por gosto d'outro as maximas sem custo
Dentro em meu terno peito radicaram.
Tu sabes, minha Olinda, quam perplexa
Minha alma balançava entre os combates;
Que a rude educação, que recebera,
Dentro em mim mesma oppunha sentimentos
Cujo extranho poder toda me enleava.
Foi n'este estado de incerteza, e inercia,
Que Alcino desposei: occulta força
Me impellia a adoral-o; não sabendo
De deleites que fonte inexhaurivel
Se ia abrir para mim entre seus braços.
Do dia nupcial todo o apparato
Olhava com um sonho!.. É impossivel
A estupidez, o pasmo em que me via
Traçar aos olhos teus; lembra-me apenas
A inquietação d'Alcino em todo o dia,
E a avidez de prazer, em que enlevado,
Terminado o festim, já n'alta noute
Ao thoro nupcial foi conduzir-me.
Ficámos sós: eu timida, agitada,
Em sossobro cruel (qual branda pomba,
Que ao tiro assustador vôa, e revôa,
Aqui, e ali mal pousa, se levanta
Sem guarida encontrar, que ao p'rigo a salve)
Palpitava, tremia, e de meus olhos
Corria em fio inespontaneo pranto.
Eu sentia no rosto, e em todo o corpo
Espalhar-se o rubor, que gera o sangue,
Pelo fogo, que toda me abrasava.
Não sei que meigos termos n'este tempo
Soltava Alcino; eu nada percebia;
Porém vi que a meus pés, banhado em gosto,
Chorando de prazer, supplices votos,
Ardentes expressões balbuciava:
Pelo meio do corpo com seus braços
Cingindo-me ancioso sobre o leito
Me foi emfim lançar. Quando eu ardia
Em chammas de pudor, o mesmo incendio
Dava a Alcino soffregos transportes:
Suas trementes mãos me despojavam
Dos nupciaes ornatos; e seus beijos
Convulsivos exforços, que lhe oppunha,
Pagavam com furor; suas caricias
Amiudando affouto, e temerario.
Irosa quiz mostrar-me; mas os fogos
Que o pejo tinha acceso, então tomando
Mais activo calor, porém mais doce;
Minhas repulsas, de ternura cheias,
A maiores arrojos o excitaram;
Menos timido, quanto eu mais irada,
Meus olhos, minhas faces, e meu seio
Beijava Alcino: eu languida fitando
N'elle amorosas vistas, reclinei-me
Sem resistir-lhe mais, sobre o seu collo:
Importunos vestidos, que estorvavam
Seus inflammados beiços de tocarem
Occultos attractivos… longe arroja.
Então aos olhos seus (tu bem o sabes,
Quando outr'hora passavamos unidas
Em innocentes brincos… feliz tempo!)
Meus peitos, cuja alvura terminavam
Preciosos rubís, patentes foram.
Ao voluptuoso tacto palpitante
Mais, e mais se arrijaram, de maneira
Que os labios não podiam comprimil-os.
Meus braços nús, meu collo, eu toda estava
Coberta de signaes de ardentes beijos.
Os leves trajos, que ainda conservava,
Em vão eu quiz suster: rapido impulso
Guiava Alcino: d'Hercules as forças
Ali vencera… As minhas que fariam?
Co'as forças o pudor desfallecido
Deixei fartar seus olhos, e seus gestos.
«Que lindos membros!… Que divinaes fórmas!…
(De quando em quando extatico dizia)
«Ah! que mimosos pés!.. Oh céo!.. que encantos!..
«Que graças apparecem espalhadas!..
«Que thesouros de amor sobre estas bases!..
«Oh! que prazer!.. que vistas deleitosas!..
«Alzira, eu vejo em ti uma deidade!
«Deixa imprimir meus osculos aonde
«Entre fios subtís se esconde o nacar!..
«Deixa esgotar a fonte das delicias!..
«Ah! deixa-me expirar aqui de gosto!..
«Não mais rubor, Alzira, não mais pejo!..»
Eram brazas, que as carnes me queimavam,
Seus dedos, os seus beiços, sua lingua!
Sim; sua lingua, bem como um corisco,
Abriu rapida entrada, onde engolphadas
Todas as sensações luctavam juntas:
Pela primeira vez dentro em mim mesma
Senti gerar-se subita mudança,
Com que de envolta mil deleites vinham.
Communicou-me sua raiva Alcino,
E na lasciva acção, que proseguia,
Tal int'resse me fez tomar, que eu propria
A seus intentos me prestei de todo.
Entre incessantes gostos doces gotas
Brotavam sobre os toques impudicos:
Mas quando, ao crebro impulso, extasiada
Cheguei ao cume do prazer celeste,
Ardente emmanação de intimos membros,
Que electrisavam fogos insoffriveis,
Innundou o instrumento das delicias,
Como se ao crime seu vibrassem pena,
Ou antes dessem premio: affadigado
Na maior languidez, quasi em deliquio,
Alcino veiu ao meu unir seu rosto.
N'este instante, eu não sei que desejava;
Sei que o primeiro ensaio dos prazeres
Em vez de suffocar activas chammas,
Scentelhas transformou em labaredas,
Infundiu-lhes vigor inextinguivel.
A ardencia dos desejos combatia
Receio occulto, sem nascer do pejo.
N'um volver d'olhos se despiu Alcino,
E deu-me nú a ver quam bem talhado
D'hombros, e lados com feições formosas
Seu corpo era gentil: válidos membros
Cobria fina pelle; era robusto,
E delicado a um tempo; esbelto, airoso,
Mediocre estatura, olhos rasgados,
Mimosas faces, rubicundos beiços,
Cheio de carnes, sem que fosse obesso,
Egual nas proporções… Eis um mancebo
Digno de a Marte, e a Adonis antepôr-se,
Não tendo de um a rude valentia,
Nem tendo d'outro a feminil brandura.
Então lancei curiosa avidas vistas
Sobre ignotas feições: fiquei pasmada
Ao ver do sexo as distinctivas fórmas
Dobrando a extensão: dobrou meu susto,
Mormente quando, desviando Alcino
Meus pés unidos, entre meus joelhos
Seus joelhos encravou, e com seus dedos
Procurou dividir da estreita fenda
Pequenos fechos, sobre os quaes, de chofre,
Assestou o canhão, que me assustava.
Ao medo succedeu uma dôr viva,
Como se agudo ferro me cravassem....
Alcino impetuoso ía rompendo
A tenue fenda… Em vão, com mil gemidos
Em pranto debulhada, eu lhe pedia
Que não continuasse a atormentar-me:
O cruel, minhas lagrimas bebendo,
Respirando com ancia, e furibundo,
Com a bôca calada sobre a minha,
Meus gritos abafando, me rasgava:
Mais internos pruridos flagellavam
Intactos membros, mais ardor vehemente
Abrange a todos do que os outros soffrem.
Copioso suor ardente, e frio
O cançasso d'Alcino, a afflicção minha,
Inculcavam assás, que eram baldados
Seus exforços crueis para romper-me.
Tão ardua intromissão debalde havia
A custo do meu sangue repetido.
Se enorme corpo diminuta porta
Deve transpôr, carece de abater-lhe
Antes d'entrar, humbraes a que se encosta.
A violenta fricção traíu Alcino,
E o membro, que tentava traspassar-me,
Da propria sanha aos impetos rendido,
Succumbiu, espumando horrendamente.
Da electrica materia nas entranhas
Caíram-me faiscas derretidas;
Um vulcão se ateou dentro em mim toda.
O insoffrivel ardor, que me infundiu
Liquido tiro, ao centro já chegado
Por onde apenas o expugnado forte
Da inimiga irrupção indefensavel,
Podia receber patente damno,
Taes estragos causou, que mais valêra
A entrada franquear ao sitiante.
Já dor não conhecia: chammejava
Meu proprio sangue, com violencia tanta
Que lacerar-me as vêas parecia.
Na estancia do prazer lançára Alcino
Do Mont-gibello as lavas, e extinguil-as
Só torrentes mais fortes poderiam.
Improviso calor calou-me o peito:
Quizera eu já expor-me aos vivos golpes;
Quizera já no meio da carnagem
A batalha suster, ganhar a morte,
Ou a victoria, de triumphos cheia.
Tardava a meus desejos ver completa
D'Alcino a empreza; eu mesma o provocára
Se, em fim, refeito da ufanosa esgrima
O não visse ameaçar um novo assalto.
A um resto de temor maldisse affouta,
E comigo jurei de não dar mostras
De leve dor, bem que me espedaçasse.
Alcino sotopõe uma almofada
Para o alvo nivelar, e separando
Quanto mais pôde nitidas columnas,
O edificio tentou pôr em ruina.
Ao forte insano impulso eu respondendo,
(Ah! que o valor cedeu no transe afflicto!)
O muro se escallou!… Foi tal a força
Da agonia cruel, que esmorecendo
Semiviva fiquei; em quanto Alcino
Dobrando, e redobrando acerbos golpes,
Do reducto de amor o intimo accesso
Penetra entre meus ais, e os meus gemidos;
Outra vez attingiu supremo goso,
Goso celestial, cujos effluvios
Um balsamo espargiram deleitavel,
Que socegou a dor, chamando a vida.
Lethargicos alentos me abysmaram
N'um pélago de gostos indiziveis;
Elevaram-me a um céo d'immensas glorias:
Encadeei Alcino com meus braços,
Enlacei-o com os pés entre as espaldas;
Férvidos beijos dando, e recebendo
Com phrenetico ardor, com ancia intensa,
Chamando-lhe meu bem, minha alma, e vida;
Vozes, suspiros confundindo… tanto,
Tanto em fim apressei dos hirtos membros
Forçosa agitação, que n'um momento
Ineffaveis delicias destillando
Alcino em mim, e eu n'elle, ao mesmo tempo,
Libámos juntos quanto prazer podem
Os mesmos homens figurar deidades…
Minha Olinda, que instantes!… Eu não posso
Traçar-te a confusão de emoções novas
Que no extasi final me transportaram!…
Amarga, acerba dor succumbe ao goso
Da ventura sem par… Vitaes alentos
Saborear não podem tantos gostos…
É preciso morrer entre deleites,
E melhor fôra não tornar á vida,
Que conserval-a sem morrer mil vezes.
Sete vezes Amor chamando ás armas
Seus subditos fieis, travou peleja;
Sete vezes Amor bradou «Victoria!»
Da indefensa coragem conduzido
Morphêo veiu c'roar nossas proezas.
Eis de que modo a tua Alzira soube
D'Amor com as lições sublime vôo
Erguer affouta sobre o nescio vulgo;
Este odeia o prazer por van modestia,
E as pudicas vestaes, escravas do erro,
Não cessam d'embair-nos, affectando
D'uma virtude van mimicas fórmas,
Que o que se anhela mais a encobrir forçam;
Forçam em vão, que a Natureza brada,
E ao grito seu, queira, ou não queira o mundo,
Curvo depõe ficções, da insania filhas,
Tirando abrolhos, que da vida lança
Na aprazivel estrada impostor bando.
Assim ornei a fronte radiosa
De vicejante rama, que decóra
Victorias, que do erro heróes alcançam.
Toma das minhas mãos, amada Olinda,
Proveitosa lição; tu já começas
Triumphos a ganhar, cheios de gloria:
Docil tua alma a improbos dictames,
Docil será tambem de mais bom grado,
Ás piedosas leis da Natureza:
Retrocede, como eu, da inextricavel
Sinuosa Vereda, onde perdidas
Palpamos trevas, tacteando abysmos;
Desapprende a fingir: só quadra ao vicio
Acobertar-se com mendaces roupas.
A modestia, o pudor gera a ignorancia,
Ou do mal-feito um sentimento interno;
O mais é cobardia, ignavia rude,
Que só n'uma alma vil pode arraigar-se.
Cabe, a quem soube respirar, vencendo
Da impostura as traições, um ar mais puro;
Olhar d'em torno a si, ver quam distante
Pulverulenta jaz infame turba:
Cabe ostentar o garbo, e a louçania
Que espanta o vulgo, impondo-lhe o respeito
De que a nobre altivez se faz condigna.
Deixa-lhe os modos, toma o que te cumpre,
Sincera Olinda, tua amiga imita.
Eu não córo de dar-me toda a Alcino,
Nem eu córo tambem de confessal-o:
Instinctos naturaes se não são crimes,
Como crime será narrar seus gosos?…
Se é innocente a acção, a voz não pecca;
D'est'arte saborêa o que estudaste,
E d'est'arte falar, ah! não vacilles!…
Não te escuse o pensar que egual pintura
Objecto egual exige, minha Olinda.
Não; nos gostos de amor sempre ha mudança,
Amor sempre varía os seus deleites.
Eu mostrei-te o modêlo; em mim o encontras;
Usa da singeleza que te é propria,
E abre o teu coração, cheio de goso,
Qual, antes de o provar, ingenua abriste.
Se expôr da sorte infensa a crueldade
Dá lenitivo ao mal, que se exp'rimenta,
Sobre-eleva o prazer á extrema dita,
Quando de o confiar redunda interesse.
Eia, querida! annue aos meus desejos,
Rouba um instante a amor, dá-o á amizade.