Este poema parece ter sido um dos primeiros ensaios da musa de Bocage. Inducções fundadas em boa razão nos levam a conjecturar que a composição d'elle data de tempos anteriores ao da partida do poeta para Gôa, isto é, do anno 1785. O transumpto pelo qual se fez a presente edição, é sem duvida preferivel por sua correcção ao de que se serviu quem ha já bastantes annos fez imprimir em Paris o referido poema, juntamente com outras poesias do mesmo genero em um folheto de oitavo grande. Posto que sobejem fundamentos para julgar reaes as personagens, e passados em verdade os factos, que despertaram a vêa satyrica do poeta, suscitando-lhe a idéa de tal composição, não é comtudo possivel entrar em algumas particularidades a esse respeito: e até julgâmos pouco provavel que, mesmo em Setubal, se conserva ainda a memoria das façanhas do azevichado heróe, que mereceu obter a immortalidade nos versos do Bardo do Sado.
[Pag. 19] — A Manteigui.
Resumindo aqui as indicações constantes de uma nota, que encontrámos appensa a um antigo manuscripto d'este poema, sem todavia nos responsabilisarmos por sua veracidade, diremos que a protagonista D.nna Jacques Manteigui, natural de Damão, vivia na cidade de Gôa em companhia de um marido de boa feição (cujo nome e circumstancias não vieram ao nosso conhecimento). Esta dama tornava-se notavel não menos pela sua belleza que por sua desenvoltura e ambição; e sabia fazer dos seus encantos um trafico por extremo lucrativo. D. Frederico Guilherme de Sousa, então Governador geral da India, apaixonando-se por ella, a tomara por sua amiga; porém isso não obstava a que ella não lhe fizesse repetidas infidelidades. Entre outras era accusada pela voz publica de entreter luxurioso commercio com um negro, seu escravo, moço bem fornido, ao qual dava de graça o mesmo que o Governador só podia comprar por alto preço! — Disse-se que na presente composição entrara por muito a vingança pessoal de Bocage, despeitado porque a dama se recusara abertamente a corresponder-lhe, pleiteando elle com ancia os seus favores. O que parece fóra de duvida é que d'aqui lhe proveiu em parte a sua desgraça; pois que chegando esta satyra ás mãos de D. Frederico, este se julgou altamente offendido na pessoa da sua bella, e irritado contra o poeta o mandou incontinente deportado para Macau, d'onde a muito custo pôde obter licença e meios de transportar-se a Lisboa.
De poema «Manteigui» temos visto tres ou quatro edições diversas; todas feitas, ao que parece, em Lisboa. Não nos ligámos a alguma em particular, mas aproveitámos de todas as variantes que offereciam visos de mais correctas, confrontando-as sempre com os manuscriptos que possuiamos, e preferindo em todos os casos o que se nos afigurava por mais exacto, e conforme ao texto original.
[Pag. 29] — A Empreza Nocturna.
Esta peça, mais conhecida sob a denominação de «Noute de Inverno» e já por vezes impressa, tem sido quasi universalmente attribuida a Bocage; pareceu portanto que não devia omittir-se na presente edição. Devemos porém declarar aos leitores, que segundo o testemunho de pessoas mui auctorisadas, ella não é obra do nosso poeta, e sim do seu contemporaneo e amigo Sebastião Xavier Botelho. De outras, que estão em caso analogo, e que similhantemente vão aqui incorporadas, iremos dando razão nos logares competentes.
[Pag. 35] — Epistola a Marilia.
Todas as pessoas lidas na historia de Bocage sabem que esta epistola, e o soneto que damos a pag. 111 do presente volume, lhe serviram principalmente de corpo de delicto, quando, perseguido por ordem da Intendencia geral da policia, foi a final preso em 10 de agosto de 1797; sendo então transportado de bordo da embarcação onde se refugiara para os segredos da cadêa do Limoeiro, e d'ahi passados alguns mezes removido para os carceres da Inquisição. (Veja-se o «Estudo Biographico» que vem no tomo I. das Poesias de Bocage, edição de 1853, a pag. XL e seguintes.)