[Pag. 47] — Arte de Amar.

No anno 1822 appareceu em Lisboa impressa (anonyma) em um pequeno folheto de oitavo esta peça, miseravelmente deturpada em muitos versos, e mutilada em alguns outros, como facilmente poderá verificar o leitor curioso, que possuindo por ventura o citado folheto, quizer confrontal-o com a presente edição. Aquelle que for versado no conhecimento de estylos terá talvez aventado que o d'esta composição se affasta notavelmente da elocução propria de Bocage. E na verdade, segundo a asseveração de pessoas competentes, a obra é de Sebastião Xavier Botelho; mas tambem nos certificaram que tendo-a seu auctor submettido á correcção e censura de Bocage, este emendara e polira muitos versos, introduzindo-lhe outros totalmente seus, pelo que nos pareceu que de justiça devia achar cabida na presente collecção.

[Pag. 61] — Cartas de Olinda e Alzira.

Estas famosas cartas gosam desde muitos annos da posse de andarem encabeçadas no nome de Bocage em diversas collecções manuscriptas, que temos tido presentes. Se por ventura não são d'elle, ao menos (que nós saibamos) não foram ainda attribuidas a outro auctor.

As seis primeiras epistolas têm sido já impressas, e por mais de uma vez, posto que mais ou menos correctas, conforme os diversos transumptos que os editores poderam haver á mão para as suas edições. Quanto á setima (pag. 93) devemos declarar que não sómente julgamos ser esta a primeira vez que se imprime, se não que estamos persuadidos de que poucas pessoas haverão noticia da sua existencia. Pelo menos na immensa multidão de opusculos e papeis d'esta natureza, que no decurso de muitos annos temos revolvido, apenas uma unica vez deparámos com esta epistola junta ás suas companheiras. D'essa copia extrahimos a que nos serviu para a presente edição; onde, pela impossibilidade de fazer a necessaria confrontação com outras copias, deixamos ir alguns logares, que nos parecem viciados, mas que nos não atrevemos a emendar de motu proprio.

[Pag. 109] — Sonetos.

Se levassemos a mira sómente em engrossar o volume, ainda que á custa de obras suppositicias, teriamos sem duvida duplicado, ou triplicado a serie dos sonetos que apresentamos, admittindo ahi indistinctamente como de Bocage todos os que se lhe attribuem nas muitas e variadas collecções manuscriptas, que temos consultado, ou os que geralmente e sem exame se repetem como taes. Outro tanto dizemos no tocante a decimas, glosas, e outras similhantes composições. Mas entendemos que isto seria intoleravel em uma edição feita para leitores intelligentes, os quaes teriam justissimo direito para queixar-se de quem, como se diz, quizesse encampar-lhes gato por lebre. Assim resolvemos excluir tudo o que de proprio conhecimento, ou em resultado d'exame critico e comparativo, se mostrava evidentemente alheio; já porque contivesse allusões a pessoas, ou factos mais recentes; já porque sendo mal digerido ou ineptamente escripto, serviria de descredito para o poeta, e muito mais denunciaria a falta de siso e de critica em quem ousasse attribuir-lho; já finalmente porque muitas d'essas obras pertencendo aliás a auctores conhecidos, seria flagrante injustiça privar a estes da fama, ou do desar, que de taes producções deva provir-lhes.

Apezar da regra adoptada, alguns sonetos vão ainda incorporados neste volume, que supposto não desdigam do estylo do auctor, e tenham sempre corrido em seu nome, nem por isso nos julgamos auctorisados a dal-os por genuinos. Pelo que os marcámos respectivamente com a lettra (D) querendo com ella significar que os temos por duvidosos, não affiançando por modo algum a sua authenticidade.

[Pag. 111] — Soneto I.