XIII

Ergue a voz, que as paredes abalava,
E co'a força do alento sibilante
Mata a pallida luz, que a um canto estava,
Em plumbeo castiçal agonisante:
«Oh tu, rei dos caralhos (exclamava)
Perde o medo, que mostras no semblante:
Que quem hoje te agarra no marsapo
É de Venus o filho, o deus Priapo.

XIV

«Vendo a fome cruel do parrameiro,
Que essas negras entranhas te devora,
De putas um covil deixei ligeiro,
Por fartar-te de fodas sem demora:
Consolarás o rigido madeiro
N'uma femea gentil, que perto mora;
Mas não lh'o mettas todo, pois receio
Que a possas escaxar de meio a meio.»

XV

Disse; e o negro da cama velozmente
Para beijar-lhe os pés se levantava;
Mas tropeça n'um banco, e de repente
No fetido bispote as ventas crava:
Não ficando da queda mui contente
Co'uma gota de mijo á pressa as lava;
E, acabada a limpeza, a voz grosseira
Ao numen dirigiu d'esta maneira:

XVI

«Soccorro de famintos fodedores,
Propicia divindade, que me escutas!
Tu consolas, tu enches de favores
O mestre da fodenga, o pae das putas:
Viste que, do tezão curtindo as dôres,
Travava c'o lençol immensas luctas;
E baixaste ligeiro, como Noto,
A dar piedoso amparo ao teu devoto.

XVII