Eu fiquei na sala, junto da mesa, folheando distraidamente um livro de devoção ornado de lindas imagens.

Levantei-me da cadeira e dei dois passos para a porta, quando vi assomarem a ella os vultos das duas senhoras. Cumprimentei-as então respeitosamente.

Uma d’ellas era alta, elegante, de physionomia austera e altiva fronte. Devia de ter sido formosa na sua juventude; mas a sua formosura por força tivera sempre um caracter inflexivel de orgulho indomavel. A outra era uma senhora quasi decrepita, em cujas feições meio apagadas se não podia ler outra expressão, que não fosse a d’esse ascetismo pavido, proprio dos espiritos acanhados, quando os gelos da edade, accumulando-se-lhes na fronte, lhes phantasiam, para além do tumulo, já proximo, as chammas atterradoras do inferno.

A primeira d’estas duas senhoras, que eu soube depois que era a condessa, cumprimentou-me tambem; e levando a luneta aos olhos, mirou-me alguns instantes com gélida seriedade. Depois voltou-se para D. Antonia, e dirigiu-lhe um olhar, que parecia querer dizer: «É esta a pessoa em quem fallámos?» e D. Antonia respondeu-lhe com um movimento de cabeça, que significava: É sim, minha senhora, infelizmente.»

A condessa veio então para mim, e disse com voz secca e vibrante:

—Folgo muito de conhecel-a, minha senhora. Sou antiga amiga da familia de seu marido. Estimarei poder consagrar-lhe o mesmo affecto.

—Se conseguir merecer a affeição de v. ex.ª, respondi inclinando-me, será isso para mim altissima honra, minha senhora.

A condessa cumprimentou-me de novo, e foi sentar-se no canapé. A baroneza, que esbrugava um rosario e resmungava umas orações, sentou-se ao pé da mesa de jogo, embrulhou-se toda em pelles e tapetes, que a Maria do Rosario lhe trouxe com a maior promptidão, e ficou immovel, com os olhos fitos no vago, com os labios em continuado movimento. A luz do candieiro, batendo-lhe em cheio no rosto escaveirado e livido, fazia-a parecer uma d’essas figuras dos quadros asceticos da escola hespanhola, que tivesse descido da tela, obrigada por magica evocação.

—É muito bonita sua sobrinha, D. Antonia, disse a condessa. Deus queira que essa bellesa não seja arma que Satanaz queira empregar contra a salvação da sua alma.

—Não será, não, minha senhora, se Christo Senhor Nosso ouvir as orações que todos os dias lhe dirijo fervorosamente. Eu, senhora condessa, desde que meu sobrinho casou, ainda não tive um só pensamento, que não fosse para o bem d’esta menina. Assim ella m’o reconhecesse.