—Oh! minha querida senhora D. Carolina, tornei eu rindo, estou prompta já a assignal-o, e affianço-lhe que é injusta, desconfiando da minha franqueza. Mas o que deseja que eu lhe diga? Nos mais reconditos refolhos do meu coração não se esconde um pensamento, que eu não possa confiar-lhe.
—Le jour n’est pas plus pur que le fond de mon cœur! tornou Carolina com seriedade comica, já conheço o estribilho. Como prova das boas relações em que vamos estar, principiemos largando o tratamento cerimonioso que temos empregado. Queres, Margarida?
—Com todo o gosto, Carolina.
—Bom! estamos alliadas! E agora diz-me: que idéa fórmas tu de minha madrinha, e de meu marido?
—Como quer...
—Como quer? repetiu ella, ameaçando-me com um dos dedos levantado.
—Perdão: como queres que eu tenha uma opinião formada sobre duas pessoas que vi esta noite pela primeira vez?
—Ou estes olhos mysteriosos, de um azul tão profundo como o do céo em noite de verão, me enganam muito, ou a esta cabecinha gentil nem tanto tempo é necessario para avaliar uma pessoa. Eu mesma vou apostar em como já estou julgada e condemnada talvez no teu tribunal intimo.
—Fazes demasiada honra á minha intelligencia, tornei eu rindo, affirmo-te...
—Nada affirmes; acceitarei as tuas phrases como versiculos do Evangelho, e passarei desde já a dizer-te, para poupar trabalho á tua imaginação, qual é o caracter d’esses dois personagens, com quem me vejo obrigada a estar sempre em scena n’esta comedia da vida.