—Queres que lhe offereça os alimentos frugaes da nossa Thebaida? Pão secco...

—E laranjas, desmemoriado. Pois já te esqueceste das que te trouxe o pae d’um dos teus discipulos?

—Não, não, acudi eu apressadamente, não tenho vontade.

As minhas recusas de nada valeram. D’ahi a pouco apparecia Theodoro com um açafate de laranjas magnificas.

—Madame de Maintenon, disse elle, quando não tinha assado para dar aos hospedes do seu primeiro marido, Scarron, contava-lhes uma historia. Aqui, senhora D. Margarida, tem de passar sem assado e sem historia.

—Dispenso o primeiro, tornei eu, mas não dispenso a segunda. A sua vida passada não contará muitos factos d’util lição para quem entra, como eu entro, na estrada da existencia? A sua vida presente não está cheia tambem de modesto mas proveitoso ensinamento?

Theodoro abanou a cabeça com melancholia.

—O meu passado, filha, é um passado tristemente banal. Ferventes illusões, desenganos profundos, n’isso apenas se cifra. Julguei que o meu paiz caminhava com o resto da humanidade, e que podia tambem eu accender o meu facho modesto para o ajudar a dissipar as sombras. Enganei-me. Eram as trevas as vencedoras. Encaneceram-me os cabellos n’essa lucta ingloria. Tarde, bem tarde, percebi que, se o meu paiz regeitava o meu auxilio, reclamava-o a minha familia. Voltei para o lar, como o filho prodigo. Cumpro agora os meus deveres como posso, e infelizmente posso pouco. A minha vida presente, senhora D. Margarida, tem o seu lado luminoso e o seu lado sombrio. Quando, ao pé do leito de minha irmã, contemplo o sol que illumina além o horisonte com as derradeiras chammas, quando vejo n’este vasto sanctuario da natureza espelhar-se a idéa de Deus, tão clara e tão harmoniosa como a vejo obscura e contradictoria na egreja profanada pelos que se dizem seus sacerdotes, então sinto-me feliz, e agradeço á Providencia estes breves instantes de suave repouso que me concede antes de me abrir as portas do tumulo. Outras vezes, quando vejo minha pobre irmã soffrer, sem eu lhe poder dar o conforto que o seu estado reclama, sinto as ondas da amargura invadirem-me o coração. Sinto o remorso pungir-me...

—Theodoro! exclamou a irmã.

—Sim, Josephina, o remorso, porque foi o demonio da ambição quem me arrastou para longe da familia. Cubiçei o papel de missionario da idéa, quando me devia restringir ao dever mil vezes mais santo de consolador, de esteio dos que Deus confiou á minha protecção immediata. Pela humanidade trabalham muitos, querem todos pôr a mão n’esse trabalho glorioso, e esquecem o homem, o homem com os seus affectos, com os seus deveres modestos, mas augustos, deveres que se resumem no acanhado circulo da familia. Acanhado, acanhado como é acanhada a cellula da abelha, mas a cellula á cellula se liga, e o seu conjuncto fórma a colmeia. O conjuncto das familias, devemos pensal-o, é a humanidade.