—Sabe o que diz o vulgo n’estes casos, minha querida senhora D. Margarida? acudiu maliciosamente Carolina, diz assim: «Viu passarinho novo!»

—Pois olhe, tornei eu rindo, venho de uma gaiola onde não ha senão passaros velhos. Venho de casa de Theodoro Leite. Vi a irmã; pobre entrevadinha. A senhora condessa por força ha de ter soccorrido aquelle infortunio, continuei eu maliciosamente.

—Minha filha, respondeu a condessa, não me quero oppôr aos juizos de Deus. A minha caridade estende-se a todos os christãos; mas animar os impios não entra nos meus principios.

—Se Jesus aqui estivesse, minha senhora, acudi eu sorrindo-me, parece-me que teria ensejo para repetir a parabola do Samaritano.

—Está muito forte em theologia, tornou a condessa.

—Não, minha senhora, não sou theologa; mas gosto de ler o Evangelho.

—Longe de mim a idéa, redarguiu a devota fidalga, de contestar o merecimento dos livros sagrados; mas deixe-me avisal-a que não é bom lel-os e commental-os sem ter um guia espiritual. Sabe a que isso nos conduz? Ao protestantismo.

—Quem diz a vossa excellencia, interrompeu Carolina, que a senhora D. Margarida não tenha um guia espiritual? As suas excursões por estes campos, tão, desprovidos de attractivos, não podem ter outro fim senão o de procurar um... confessor.

—Eu bem lhe disse, acudiu D. Antonia com azedume, que não era bonito andar sósinha. Podia isso dar logar a mil interpretações, falsas decerto, mas que não deixariam de lhe ser desfavoraveis. Não me quiz ouvir.

—Infelizmente, D. Antonia, exclamou a condessa, é esse o grande defeito da mocidade contemporanea. Independencia individual, eis o seu desideratum. Liberdade de pensamento... para o mal, e liberdade de acção, que tambem no mal vae parar. Lerem sós e andarem sós. Pois olhe, D. Antonia, quando uma menina lê algum livro muito recatada, e sem querer que lh’o expliquem, póde contar que ao seu lado se debruça sobre a pagina a cabeça de Satanaz, e quando quer andar só, não será Lucifer o companheiro, mas olhe que vem a dar na mesma.