—São presentimentos, acudiu ironicamente a tia de meu marido.
—Extremamente lisongeiros para este seu adorador, tornou Alberto rindo; poderei por acaso alimentar esperanças?
—Póde... pois não, continuou ella trocando uma vista d’olhos com as suas devotas companheiras, póde tel-as e muito bem fundadas.
Alberto ficou um pouco enleado, reparando n’estes mysterios da conversação. Eu já os percebia, por isso procurei mudar logo de palestra.
—Então aborreceu-se muito na Ericeira? perguntei.
—Não minha senhora, respondeu Alberto com a facilidade que o seu espirito privilegiado tinha em seguir todas as direcções da conversação. Eu sou d’aquelles que consagram ao oceano um amor desinteressado. Ha immensa gente que diz: «Gosto do mar, mas do mar em tempo de banhos» assim como dizem tambem: «Gosto de Cintra, mas de Cintra na estação em que a sociedade elegante procura as suas frescas sombras e os seus ridentes panoramas.» Eu não; gosto do mar e gosto de Cintra sem segunda intenção; do mar no inverno, e de Cintra na primavera, do mar sem barracas na praia, de Cintra com Seteais deserto. Já vê por conseguinte vossa excellencia que tive este anno o supremo goso, que podem ter todos os namorados, o de estarem sós com o objecto da sua affeição. Eu e as vagas conversámos sem testemunhas, ellas contaram-me historias tão maravilhosas, eu confiei-lhe poemas admiraveis, e tanto mais admiraveis quanto eram ineditos, e tanto mais ineditos quanto nem chegavam a formular-se em palavras. Quando vier o tempo do amor official pelas praias ouvirá o pobre oceano tantas apostrophes de poetas, que não tive animo de o torturar antecipadamente; pois ainda assim, entendemo-nos e separámo-nos saudosos um do outro.
Eu estava prestando attenção ao frivolo palrar de Alberto, sem por isso deixar de ouvir a palestra em voz baixa, que se travara entre as pessoas presentes.
—É uma entrevista em fórma, dizia a condessa.
—E que cynismo! accrescentava Jeronymo.
—Que falta de habilidade! murmurava Carolina.