Alberto nem parecia reparar na posição em que o tinham collocado, e que devia dar em resultado maior intimidade. Era o que fôra sempre: um conversador amavel, elegantemente frivolo, que tomava comigo o tom d’uma respeitosa familiaridade.
Um dia, obedecendo a essa irresistivel attracção, que nos obriga a chegarmo-nos á beira do precipicio, e debruçarmo-nos para elle, ainda que saibamos que um momento de vertigem nos póde arrojar ao despenhadeiro, ousei alludir á historia do seu passado.
É inconcebivel, mas é certo. Luctei tres dias com a tentação, afinal não pude resistir, e aventurei a pergunta.
—Acredita na transmigração das almas? disse Alberto, em vez de responder.
—Porque? tornei eu espantada.
—Porque, se acredita, ha de perceber perfeitamente a minha historia. Isso em que me falla succedeu, se me não engano, a um Alberto, que vivia no tempo de Noé. Depois, como sabe, veiu o diluvio. Affogou-se nas grandes aguas o corpo e a memoria. A alma, desprovida d’essa faculdade, transmigrou para este corpo, nado e creado em pleno seculo XIX. Mas como ha de lembrar-se a coitada dos acontecimentos ante-diluvianos?
Eu desatei a rir, mas devo confessar que senti um certo despeito. É inexplicavel, não é? É inverosimil? Bem sei. Propuz o enigma, não intentei resolvel-o.
Um dia Theodoro Leite mandou-me dizer que me desejava fallar, e com muita urgencia.
Fui a casa d’elle. Theodoro e a entrevadinha receberam-me com o jubilo habitual. Depois Theodoro acompanhou-me á volta, e pelo caminho foi-me contando o que o obrigara a mandar-me chamar.
—A Quiteria, disse-me elle, que lhe ficou muito affeiçoada desde a primeira noite em que a viu, e em que a minha querida filha (permitta-me que lhe dê esse nome) se mostrou tão boa, tão amavel com ella e com os outros creados, sentando-se junto d’elles na cosinha, conversando com elles, ouvindo-lhes as historias, procedimento esse que d’um modo tão notavel contrastava com o orgulho da tia de seu marido, a Quiteria, pois, veiu ter comigo, e pediu-me que a avisasse, coisa que ella não podia fazer, porque a minha filha está sendo a toda a hora espionada pela Maria do Rosario. Disse-me ella que se anda tramando lá por casa uma intriga terrivel, que tem unicamente por fim promover uma separação entre Claudio e a minha querida menina, separação que hão de fazer escandalosa, e cuja vergonha ha de recair toda sobre a sua innocente cabeça.