Lucinda ia desatando a rir; a frase «pobre criança» applicada á quinquagenaria tia era d'um effeito comico, ainda realçado pelo tom sentimental do romantico mancebo.

Mas, ao mesmo tempo, Lucinda sentiu um inexprimivel jubilo. Essa frase queria dizer: «Pobre victima, que julgas ser o alvo dos{44} meus pensamentos, e que não és mais do que o escudo, que me serve para conquistar, com mais resguardo, o amor da mulher a quem adoro.» Assim, essas suas palavras eram uma confissão explicita do que se passava na sua alma; encerravam em si a chave do enygma.

Porém, Lucinda não desejava que esse sentimento de compaixão soasse indefinidamente no peito de Frederico Nunes; julgára que, apesar da distancia, o seu namorado chegasse a tomar a sério o amor de D. Marianna. A pretenciosa tia podia parecer uma galante senhora, bem conservada, nunca uma formosa rapariga. Lucinda sempre julgára Frederico cumplice do seu amoroso artificio. Vira que elle precisava d'um meio, por mais tenue que fosse, para fallar sem receio, proporciona-lhe a occasião de o obter. Se elle a acceitasse, é porque realmente a amava. Assim succedeu, e como, nos termos a que tinham chegado, o véu, além de ser inutil, era tambem prejudicial, tratou de o dilacerar.

Para isso dirigiu-se a D. Marianna, e disse-lhe que um mancebo elegante que nutria por ella a mais violenta paixão, que se julgava correspondido,{45} se podia acreditar nos ternos olhares com que da janella o favorecera, sabendo a amisade que as ligava, e sendo da intimidade de Lucinda, se dirigira a esta para que obtivesse da sua amiga uma entrevista, em que lhe podesse declarar o seu affecto e o desejo que alimentava de o ver coroado por um feliz hymineu. D. Marianna caíu das nuvens. Tinha distribuido os seus olhares ternos com tanta prodigalidade que não sabia qual dos felizes mortaes contemplados na distribuição, queria dar ao crepusculo da sua vida uma ventura raras vezes reservada para essa idade, a d'um casamento por amor.

Escusamos de dizer que, depois da resistencia pudica e indispensavel, D. Marianna consentio na entrevista. Marcou-se dia, ou antes noite, porque D. Marianna, allegando a maledicencia das visinhas, mas na realidade para não ter que affrontar senão a luz mentirosa das vellas, exigio obstinadamente que fosse a essa hora. Convencionou-se que Lucinda daria a chave do jardim ao aventuroso namorado, e que passaria aquella noite em sua casa para entreter Adelaide, e velar assim{46} para que não fosse perturbada a amorosa entrevista.

Combinado por este lado o plano estrategico, Lucinda dirigiu-se a Frederico. Disse-lhe que a sua amiga desejava ardentemente fallar-lhe, que o encarregava de lhe dizer que era tão urgente a necessidade d'uma entrevista que a obrigava a pôr de parte a modestia feminina, e a dirigir-se a elle, fiando-se na sua honra de cavalheiro. Demais uma senhora respeitavel assistirá á entrevista. Concluiu dizendo-lhe que era na seguinte noite que devia realisar-se a entrevista, ensinando-lhe a topographia da casa e dando-lhe a chave do jardim.

Lucinda dissera isto com voz artisticamente suspensa, como se debalde tentasse reprimir os soluços. Estava preparando uma explosão. Podia ser esse o instante supremo. Frederico devia talvez cair-lhe aos pés, e o susto que teria, elle o timido moço, de ter uma entrevista com uma mulher, apressaria o desenlace. Teria nesse caso a coragem do medo.

Effectivamente era esse o caminho que iam tomando as coisas. No primeiro impeto Frederico{47} ia arrojar-se aos pés de Lucinda, atirando para longe de si a chave do jardim. Mas a reflexão sobreveio, e o extranho rapaz apanhou a chave, e passando a mão pela testa, disse com voz firme:

—Irei. É um dever d'honra.

Lucinda amaldiçoou os escrupulos do seu namorado. O destino obstinava-se; a comedia tinha de se representar até ao fim.{48}