O homem parou.
—Sou eu, sou Lucinda, continuou a ousada menina n'esse momento mais timida do que elle, eu que venho expiar a minha culpa, e fazer-lhe a confissão que me absolve. Sim dil-o-hei, sem temer que me accusem de immodesta: «Amo-o».{56}
E as suas mãos procuravam as de Frederico. Mas coisa notavel, ou as mãos d'este se lhe esquivavam, ou D. Marianna, arranjando uma variante á mulher de Putiphar, em vez de lhe arrancar a capa, lhe arrancara as mãos.
Mas quando Lucinda passava do espanto á colera, recebeu um impulso violento que a fez ir, cambaleando, segurar-se a um ramo de jasmineiro, e ouviu uma voz grosseira e avinhada, que lhe dizia:
—Você, além de ser descarada, é ladra tambem? Dize-me ternuras, minha Phylis, mas larga os timidos volateis.
Lucinda soltou um grito horrivel, e fugiu como louca na direcção de casa. A esse grito sentiram-se passos precipitados, que vinham do fundo do jardim. Um outro homem lançou-se ás guellas do interlocutor de Lucinda, e uma outra voz juvenil de senhora começou a bradar por soccorro.
A este barulho correram os criados e destrancaram-se as portas, o jardim innundou-se de luz. D. Marianna appareceu com esplendida toilette á porta de casa, o causador d'este tumulto fugiu por cima do muro, deixando{57} os seus despojos nas mãos do seu contendor, e Lucinda, que ficára offegante á sombra de uma alta figueira que se afferrava ao muro, pôde vêr, com doloroso espanto, a seguinte scena:
Frederico victorioso, mas vermelho de colera e vergonha, tinha nas mãos, como tropheus da sua gloria, duas gallinhas. A pouca distancia estava Adelaide escondendo o rosto nas mãos. D. Marianna ficára como que petrificada, os criados riam e segredavam.{58}
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