Não vou responder á carta, repito, vou apenas levantar{5} as phrases, que foram dirigidas a todos quantos escrevemos n'esta profana Lisboa, para nosso ensino e aproveitamento. Oiçamos com o devido respeito.

Trata-se primeiro de saber qual é o motivo da crua guerra intentada por nós contra a escola de Coimbra, guerra, em que ousámos, sem sermos Titães, escalar o Olympo, o que nos ha de render o ficarmos ahi soterrados debaixo de um Etna de palavriado. O motivo nada tem de litterario, é simplesmente o despeito que nos causa a independencia de caracter dos escriptores da universidade, que não vem enfileirar-se nas nossas phalanges, nem jurar fidelidade aos nossos generaes, e a indignação que a estes inspira o verem aquelles refractarios vagueando independentes nos plainos do Mondego.

Esteve aqui em Lisboa um baixo-profundo Marinozzi, que, tendo sido applaudido no Porto, foi pateado em S. Carlos. Nunca o digno homem se pôde convencer de que essa pateada fosse dada sem segunda intenção, e que a originasse simplesmente ou o seu mau methodo ou a sua má voz. «Fui pagar em Lisboa, dizia elle voltando lacrymoso para a cidade invicta, a questão da dissidencia do banco ultramarino, a iniciativa tomada pelo Porto na idéa da exposição, e outras coisas que excitam os ciumes da capital.» O sr. Anthero tambem opina pelo banco ultramarino e pela iniciativa da exposição. Não o perturbemos n'essa illusão suave. Menos barbaro que Affonso IV com D. Ignez de Castro, deixemol-o passeiar pelos saudosos campos do Mondego.

N'aquelle engano d'alma ledo e cego!

Mas, meu caro sr. Marinozzi, seja menos injusto. Suspeita que essas ovelhas tresmalhadas produzam tamanha desordem no aprisco lisbonense? Julga que os pastores se ralam com a falta de rezes, que foram atacadas pela epizootia, que grassa para esses sitios? Essa razão, que o sr. Anthero allega, não direi que seja uma razão de cabo d'esquadra, mas, como tanto se affeiçoou aos allemães, não se offenderá que eu lhe diga que é... une raison d'allemand.

Qual é o outro merecimento, por causa de qual são lapidados estes prophetas? É porque elles não imitam, mas innovam e inventam.

Innovam o que? Inventam o que? A philosophia de Hegel? os systemas historicos de Vico? a symbolica pagã de Creuzer? o esclarecimento da historia pelo estudo da jurisprudencia de Savigny? a critica de Schlegel, do Raynouard, de Villemain, de Michelet, de Quinet, de Taine? Mas tudo isso já lá fóra desceu das mysteriosas alturas do saber de poucos para a erudição{6} comesinha dos Diccionarios de Conversação. Applicaram pelo menos ao estudo das coisas patrias os novos pharoes accendidos pelos sabios estrangeiros, pharoes que projectam a sua immensa luz nos mares tenebrosos do passado? Não, nem isso, a menos que os artigos do sr. Theophilo Braga, que não dão um passo para além dos prologos de Garrett, não sejam considerados como equivalentes aos trabalhos dos eruditos francezes e allemães! E porque não ha de ser assim?

Eia ardor, coração, vaidade ao menos!

Ávante! Innovem, sem pagarem direitos d'alfandega. Os manufactores russos fabricam jarras de porcelana, pondo nas de Sévres um fundo, que occulta a marca franceza... Cautella, não lhes tirem o fundo, senhores innovadores e inventores! Escrevam livros, artigos

Cujos credores na Allemanha fervem