Tambem Victor Hugo foi chamado a proteger as locubrações do sr. Anthero e as suas estolas do infinito. Se julgam encontrar nos livros de Victor Hugo authorisação para o emprego d'essas imagens absurdas, mostram mais uma vez que nem entendem os modêlos que tomam. As imagens do poeta exilado, por mais arrojadas que sejam, despertam sempre uma idéa no espirito dos leitores. A imagem (deixem-me fallar a sua lingua, e citar até, se me não engano, o sr. Theophilo Braga), é a expressão visivel do Sentimento. A imagem dá um corpo á idéa, e faz com que a vejam os olhos da phantasia. Quando Victor Hugo, n'uma synthese audaz, nos diz que a ave leva o infinito preso na ponta d'aza, vemos de relance a cadeia immensa dos seres, cujos fusis extremos se ligam; que idéa nos desperta a estola do infinito? quando encontrou o sr. Anthero do Quental, em Victor Hugo, uma imagem tão ôca de sentido como esta! E, se alguma vez a encontrou, foi de certo nos instantes em que a imperfectibilidade humana venceu a inspiração divina, foi nos momentos em que dormia Homero, e é uma covardia, sr. Anthero do Quental, aproveitar-se do somno do gigante, para lhe ir estampar na fronte o indelevel estygma da sua imitação.

Mas o gigante desperta; levanta-se o Hercules, e, ao sacudir o manto, deixa cair os pygmeus, que lá se esconderam, na lama d'onde brotaram. As aguias não saem das capoeiras, disse, com muita razão o sr. Anthero; mas tambem não basta não sair de uma capoeira para ser aguia. As gallinhas tresmalhadas, que se mettem nos ninhos dos alcantís, podem julgar-se similhantes ás aves de Jupiter; mas quando se trata de voar, sobem as aguias para o ceu, desabam as gallinhas... no quintal. Cacarejem embora vituperios; os genios, a quem insultam, e aquelles a quem imitam (insulto ainda maior), pairam enlaçados no firmamento, e os zoilos nem terão a triste gloria de ser amarrados por elles ao pelourinho da sua immortalidade.

[[1]] Referia-me ao sr. Julio de Castilho, cuja carta já foi publicada.

VENDE-SE

Em LISBOA—Livraria de A. M. Pereira, rua Augusta n.os 50, 52, e nas mais do costume.

PORTO—Livraria da Viuva Moré, e na do sr. Cruz Coutinho.

COIMBRA—Livraria da Viuva Moré.

PREÇO 100 RÉIS


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