Quando os Portuguezes em 1501, suppunham que as Antilhas, o Brazil e a Terra Nova constituiam uma terra unica, suppunham que essa terra era a Asia. Quando depois de 1501 se viu que o Brazil se prolongava muito para o sul, entendeu-se que as Antilhas e a Terra Nova faziam parte da Asia, mas que o Brazil constituia a quarta parte do mundo, o alter orbis, o Novo Mundo, a terra central de Ptolomeu.

Portanto não se fazia uma injustiça a Colombo, nem talvez a Cabral, só aos capitães das expedições em que Americo Vespucio navegara, porque essas expedições é que tinham identificado o paiz novamente descoberto com a antiga terra de Ptolomeu, mas Americo o cosmographo, que espalhara a noticia, foi que colheu o proveito, e o novo mundo descoberto, não por Christovão Colombo, que nem acceitaria semelhante gloria, mas pelas expedições de que fazia parte Americo, recebeu o nome de America,[134] sem que Colombo, se ainda estivesse vivo, podesse ou quizesse protestar.

De certo, depois, quando se reconheceu a verdade, quando se percebeu que Novo Mundo era tudo, seria de perfeita justiça restituir a Colombo o que a Colombo era devido, mas já se tomara o habito da nova denominação, demais a mais euphonica e agradavel, e America ficou sendo o todo, quando ao principio só fôra America uma parte.

Não temos ensejo agora de discutir a questão das verdades ou das mentiras de Americo. Parece-nos comtudo que tem sido injustamente maltratado o cosmographo florentino. É-lhe muito adverso o visconde de Santarem, que a seu respeito publicou um livro celebre,[135] mas o visconde de Santarem não tinha conhecimento das expedições clandestinas portuguezas, conhecimento que torna hoje mais verosimil a viagem em que Americo Vespucio encontrou, indo para o occidente, Pedro Alvares que voltava da India, e que fôra considerada pelo visconde de Santarem apocrypha.

Reconhecida a existencia da terra central, era indispensavel procurar meio de se chegar á Asia. As expedições portuguezas levavam todas o fito de encontrar um estreito que as conduzisse aos mares asiaticos. Essa idéa do estreito era predominante nos espiritos do tempo. Era assim que se fazia a communicação entre os dois mares, e era por estreitos, segundo a cosmographia antiga, que se fazia a communicação entre o mar exterior e os golphos que elle formava, que eram, como dissémos, o mar Persico, o Indico, o Mediterraneo e o Caspio.[136]

Como estreitos conhecia a geographia conjectural os mares descobertos por Christovão Colombo. Havia-os em Panamá, e alguns rios da America do Sul foram tomados primeiro por estreitos.[137] D’ahi a lenda que attribue a Fernão de Magalhães o ter tido já conhecimento, por um mappa, do estreito que descobriu. O que elle tinha era a lição dos mappas conjecturaes, era o culto pelas velhas theorias que faziam passar por estreitos as aguas do mar exterior para os mares interiores, e se elle descobriu o que os outros não acharam, se á Hespanha levou essa gloria, foi porque D. Manuel, cançado de não encontrar senão terra para o sul, entendeu que o novo continente se immergia ao sul, como ao norte, pelo polo. Magalhães perseverou, dizendo que penetraria no estreito, ainda que tivesse de sumir-se na região polar, onde ha o frio e a brisa;[138] depois a descoberta das ilhas do mar Pacifico ao sul da Asia, feita por Antonio de Abreu e os outros expedicionarios enviados por Albuquerque, mais o convenceu de que haveria ilhas tambem ao sul da America como as havia ao sul da Asia, e que entre essas ilhas havia de encontrar por força o famoso estreito que o conduziria pelo occidente á Asia.

Tinha concluido este meu trabalho, e tratava já de lhe pôr o fecho, quando exigencias de uma missão official me levaram a Hespanha. Assisti no dia 11 de outubro de 1892, em Huelva, á ultima sessão do congresso dos americanistas, e, não podendo apresentar o livro que estava por completar, apresentei uma resumida indicação em francez das idéas que lhe serviam de fundamento. Acolhida com extraordinaria benevolencia, essa communicação teve a felicidade de encontrar echos sympathicos. O sr. Hamy, membro do Instituto de França, e dignissimo successor do grande Quatrefages, e o sr. Marcel, distincto geographo, deram noticia ao congresso, logo em seguida á leitura do meu resumo, e a mim em particular, de trabalhos seus que confirmavam plenamente a minha conjectura ácerca da descoberta do Brasil. A linha de demarcação de Tordesillas fôra origem de falsificações cartographicas inspiradas pelo zelo patriotico dos cartographos, falsificações pelas quaes Portuguezes e Hespanhoes procuravam fazer entrar dentro da zona dos seus paizes as terras que se iam descobrindo. Assim effectivamente o governo portuguez mostrava que não fôra platonicamente que pedira e obtivera as 370 leguas além das ilhas de Cabo-Verde. Tratou logo em seguida de explorar esse mar occidental, cujos segredos Colombo desvendára, e a viagem clandestina de Duarte Pacheco não era senão uma d’essas explorações, como foi com esses intuitos exploradores que Pedro Alvares Cabral muito de proposito se desviou do caminho que o devia conduzir directamente á India. Descoberto o Brasil, tratava D. Manuel de explicar ao rei catholico que essa terra não ficava fóra da sua zona, e tratavam os cartographos portuguezes de sanccionar essa affirmação, da mesma fórma que os cartographos hespanhoes procuravam incluir as Molucas na zona concedida ao seu paiz. Foi ainda a esse intuito que obedeceram Abreu e Serrão, enviados por Albuquerque a explorar os mares para além de Java e de Sumatra, e que nas suas audaciosas viagens não só tomaram conhecimento de um grande numero de ilhas que n’esses mares pollulavam, mas entreviram a Nova Guiné, e adivinharam a Australia.

Esta ultima affirmação é feita pelo sr. Hamy, e falta-me agora o espaço e o tempo para fazer entrar no quadro d’este livro essa importante e ainda hoje obscura questão do descobrimento da Australia.

Mas o que fica assente de um modo incontestavel é que a participação dos Portuguezes no descobrimento da America foi efficaz e activa. Se o seu governo hesitou perante a temeridade de Colombo, se sacrificou demasiadamente aos conselhos da fria razão no momento em que era necessario um lance de audacia e um arrojo de visionario, logo, despeitados por esse momento de fraqueza, e estimulados pelo glorioso commettimento dos visinhos, precipitaram-se com verdadeira furia para esse occidente que tinham receiado desvendar e foram tambem como Colombo em procura da Asia pelos mares poentes. Uns e outros, Gaspar Côrte-Real ao norte e Cabral ao sul, esbarraram com a mesma barreira que detivera Colombo, barreira que os despeitava, que os indignava, que teimavam em considerar como uma longa cadeia de ilhas que se desdobrava, como um cordão de sentinellas ferozes e asperas, deante da Asia resplandecente, e que era afinal bem mais fulgurante de maravilhosas riquezas do que essa Asia decrepita e estagnada no seu somno de seculos. Por entre os gelos do Norte, por entre as suppostas ilhas ao Sul, procuravam todos, Hespanhoes e Portuguezes, o caminho de Cathay e de Cipango. Quando se fatigaram de tão vãs tentativas, quando se convenceram de que era um novo mundo que tinham deante de si, barreira inquebrantavel que lhes vedava por esse lado o caminho para o Oriente, a perspicacia e a audacia e a perseverança do portuguez Magalhães conseguiram desfazer essa ultima illusão, reconstituir no espirito humano a Terra inteira na logica da sua estructura, e conquistar para a Sciencia o morgado da Humanidade.