[93] Assim de João Vaz Côrte Real não hesito em referir que se dizia que foi elle quem descobrira a ilha Terceira e a de S. Jorge e que por isso recebera a capitania das duas ilhas (!) Cabo Verde e o Brazil (!!). Tambem a respeito da força de João Vaz conta com a maior seriedade, e como facto authentico, uma d’estas lendas que atravessam os seculos, com as suas variantes, ácerca de homens famosos pela sua força muscular. Assim diz, que, estando João Vaz Côrte Real no Algarve a passeiar na sua quinta, veiu visital-o um castelhano muito forçoso, que tranquillamente, passando n’uma alameda de marmeleiros, os foi arrancando de um e de outro lado, pondo-lhes as raizes ao sol, João Vaz não fez a mais leve observação, mas apanhando os marmellos, apertou-os na mão e esmagou-os completamente não lhe ficando na mão senão o bagaço. É uma variante da historia do ferrador, um Mauricio de Sarce ou um D. Pedro II de Portugal. O rei ou o principe partia com a maior facilidade cada ferradura que o ferrador lhe apresentava, dizendo-lhe que não era boa, e o ferrador calado. Quando o alto personagem, pagando generosamente a sua ostentação de força, deu uma moeda de ouro ao ferrador, este partiu-a dizendo que não era boa. Como se vê, é o conto popular sempre com a mesma forma, repetida por um escriptor crendeiro, cujo testemunho tem comtudo servido para que escriptores serios percam o seu tempo com umas das suas lendas!

[94] Os Côrte-Reaes, pag. 36.

[95] Ibid., pag. 35.

[96] Os Côrte-Reaes, pag. 19.

[97] Arch. Nac. da Torre do Tombo, liv. 49 de D. João III, fl. 243, verso. Transcripto nos Côrte-Reaes, pag. 121 a 125.

[98] Não ha razão seria para que a Groenlandia pertença á America e não lhe pertençam os Açores. Da Islandia, que é a ultima parte da Europa, á Groenlandia, vão 240 leguas, de Portugal a S. Miguel 247. Portanto, se os islandezes descobriram a America porque chegaram á Groenlandia, com mais razão se pode dizer que descobriram os Portuguezes a America porque chegaram aos Açores. É perfeitamente pueril estar a discutir quem foi que tocou primeiro nas terras americanas, a gloria consiste em não ter hesitado em atravessar centos e centos de leguas de mar com o fim de chegar ao Oriente pelo caminho do occidente.

[99] Diz Pedro Nunes: «E perderam-lhe (os Portuguezes) tanto o medo (ao mar): que nem ha grande quentura da torrada zona: nem o descompassado frio da extrema parte do sul: com que os antigos escriptores nos ameaçavam lhes pode estorvar: «...Tirará nos muitas ignorancias: e a mostraram ser a terra mór que o mar (o erro de Colombo): e auer hi antipodas: que ate os Santos duvidaram: e que nam a regiam que nem por quente nem por fria se deyee de abitar.» Tratado que o Doutor Pero Nunes, cosmographo del Rey nosso senhor fez em defensão da carta de marcar: võ o regimento da altura. Reg. 1. (Lisboa, 1537).

[100] Humboldt, Histoire de la géographie, etc., tom. II. Nota H, pag. 369.

[101] Veja-se a interessante obra de Navarrete, tom. I, pag. 300.

[102] Strabão, II, pag. 83, 113 e 116. Itaque, diz Strabão na formosa passagem em que prophetisa a America, compluribus verbis persuadere nititur Eratosthenes nisi Atlantici maris obstaret magnitudo, posse nos navigare in eodem parallelo, ex Hispania in Indiam per universum id quod reliquem est, demta dicta distantia (hoc est longitudinæ terræ habitatæ) quæ totius circuli trientem excedit». Strabo, liv. I, pag. 113-114. Assim, excedendo as terras habitadas a terça parte do parallelo, o mar a percorrer é um pouco inferior a ⅔ e menos de 240°, mais de 236°. A differença imaginada por Eratosthenes e Strabão e a distancia verdadeira não é grande.