Na floresta dos sonhos, dia a dia,
Se interna meu dorido pensamento,
Nas regiões do vago esquecimento
Me conduz, passo a passo, a phantasia.
Atravesso no escuro a nevoa fria
D'um mundo extranho, que povôa o vento,
E meu queixoso e incerto sentimento
Só das visões da noite se confia.
Que mysticos desejos me enlouquecem?
Do Nirvana os abysmos apparecem
A meus olhos, na muda immensidade.
N'esta viagem pelo ermo espaço
Só busco o teu encontro e o teu abraço,
Morte! irmã do Amor e da Verdade!

Conquista pois sósinho o teu futuro,
Já que os celestes guias te hão deixado
Sobre uma terra ignota abandonado,
Homem = proscripto rei = mendigo escuro!
Se não tens que esperar do ceu (tão puro,
Mas tão cruel!), e o coração maguado
Sentes já de illusões desenganado,
Das illusões do antigo amor perjuro:
Ergue-te então na magestade estoica
D'uma vontade solitaria e altiva,
N'um esforço supremo de alma heroica
Faze um templo dos muros da cadeia
Prendendo a immensidade eterna e viva
No circulo de luz da tua Idea!

VI

Empunhasse eu a espada dos valentes;
Impellisse-me a acção, embriagado,
Por esses campos onde a Morte e o Fado
Dão a lei aos reis tremulos e ás gentes!
Respirariam meus pulmões contentes
O ar de fogo do circo ensanguentado,
Ou caíra raivoso, amortalhado
Na fulva luz dos gladios reluzentes!
Já não viria dissipar-se a aurora
De meus inuteis annos, sem uma hora
Viver mais do que sonhos e a anciedade!

Já não veria em minhas mãos piedosas
Desfolhar-se uma a uma as tristes rosas
D'esta pallida e esteril mocidade!



ANTONIO CANDIDO

I