Margarida passeava de carruagem, ia ao theatro, ao paço, aos bailes, ás festas de beneficencia, vendia nos bazares de caridade elegante, fazia e recebia visitas, e de vez em quando, se no meio d'este turbilhão avistava o marido, media-o de alto a baixo com um olhar de profundo e inconcebivel tedio!
Eduardo durante estes dez annos tambem soffrera grandes modificações na sua vida.
Luctara como um homem, e soubera vencer a mediocridade do seu nascimento e da sua posição.
No instante em que aquella que elle um dia amara como a noiva estremecida da sua alma, sentia vagamente afundar-se no sorvedouro negro da miseria, elle recusara altivamente uma pasta de ministro e uma noiva brazileira, possuidora de duzentos contos fortes, isto depois de uma sessão legislativa, em que a sua palavra viva, nervosa, eloquente, colorida e artistica havia deslumbrado o paiz.
—Não me vendo por dinheiro, nem pelas honras mentirosas com que os tolos lançam poeira á cara uns dos outros; respondera a quem o interrogava espantado ácerca d'estas duas recusas.
Alguem, que me contou este vulgar episodio da vida moderna, mostrou-me o fragmento de uma carta que Margarida escreveu doze annos depois de casada a uma socia das suas antigas alegrias.
«É a ti que prefiro escrever. Conheceste-me solteira, feliz, idolo de um pae, que, ai de mim! se perdeu e me perdeu pela vaidade. Has de ter dó de mim.
«Tenho dois filhos e preciso ganhar honestamente o pão que elles hão de comer!