—E eu que pensei que me conhecia! Pois não me conhece, minha mãe? Eu é que sou o seu Francisco, sou eu, repare bem...
A velha então explodiu um alto e clamoroso grito, e chorando e rindo, cahiu nos braços do filho.
—Agora conheço, sim, estava tonta! Esta cabeça! Mas se tu eras uns dez réis de gente quando abalaste d'aqui... Onde está a tua roupa? Já jantaste? Cá a gente janta ao meio dia, mas arranja-se tudo, não tem duvida... a Joanna foi á cidade, vou eu mesma matar uma gallinha... Tens fome? deves ter, sim? A minha cabeça... a minha cabeça! O meu Francisco! Mas porque me não mandaste dizer que chegavas, rapaz? Valha-te Deus, manicanso!...
E a tia Genoveva no meio do seu contentamento sahia da sala para logo voltar, amontoando perguntas sem nexo.
—Gostas d'isto? gostas d'aquillo? Do que vaes gostar é do vinho, é do nosso caco de salsa e sahiu-me d'aquella casta! O presunto vamos com Deus, que tambem me sahiu bom. Vaes provar... Ora o peccado do rapaz que me não avisou de nada!
E sahia para d'ahi a pouco voltar com a mesma abundancia de perguntas e de phrases penetradas de amoravel reprehensão...
Oh! que bom e que intimo foi aquelle jantar!
A sala alegre e caiada de branco, a toalha aspera, grossa e nevada, os talheres de cabo d'osso fabricados em Guimarães, os copos com um friso dourado nas bordas, as janellas abertas e dando para os campos onde cahiam suavemente as tintas do sol posto, tudo dava uma quieta e serena beatitude ao coração do brazileiro.
A mãe encostada ao espaldar da cadeira em que estava sentado o filho servia-o com muito carinho, fazendo-lhe perguntas sem conta a que elle respondia com o rosto inundado e clareado pelas lembranças de um passado que as palavras da mãe evocavam renascido.