A morte surprehendera-o. Não tinha tido tempo de fazer nada em favor da sua desvalida Martha.
Oito dias depois, entrava esta, vestida de luto, muito pallida, mas com uma expressão estranha de firmeza no olhar, em casa do commendador Gonçalves.
Julião, o filho do commendador, tinha 23 annos quando Martha foi para casa do pae. Ao principio pouco reparou n'ella. Imaginava-a uma mestra como as outras, o mesmo livro tirado a centenas de exemplares. Reconheceu sómente que era um pouco mais bonita que a generalidade das suas collegas.
Um dia, porém, que elle lia Gœthe no original, e que uma phrase obscura do poeta o fazia parar na leitura um tanto impacientado e confuso, lembrou-se—acaso ou presentimento—de recorrer á mestra de allemão de suas irmãs.
Entrou na sala de estudo, com um certo desdem a transparecer-lhe na physionomia.
Póde ser-se educado na Allemanha e não comprehender o Fausto: o que era no emtanto absolutamente impossivel, na opinião do moço, era não ter nunca estado na Allemanha e conhecer Gœthe como um poeta nosso compatriota.
Martha conhecia-o.
Pegou no livro que Julião lhe estendia, deitou um relance de olhos para o verso de que se tratava, e depois, com um sorriso não isento de certa malicia innocente, explicou a Julião a ideia do poeta.