Á tarde, depois de jantar, emquanto o commendador resonava a sua sésta sobre a prosa elegante do Diario de Noticias, emquanto a commendadora meditava o rol d'aquelle dia, digerindo um bom jantar, e um ataque de furia contra as suas criadas presentes e futuras, emquanto as meninas debruçadas á janella, trocavam substanciosos commentarios ácerca de um alferes que morava no predio fronteiro, e de uma menina muito namoradeira que morava no predio do lado, Martha, sentada ao piano, desfiava sósinha o longo rosario das suas saudades.

Julião ouvia-a, fingindo ler um jornal ou um livro, e a apaixonada artista bem comprehendia que uma alma a estava escutando, e que essas limpidas notas que ella arrancava ao piano iam vibrar divinamente em um coração que a entendia.

Tudo os separava na terra: o orgulho feroz de uma familia de parvenus, o santo orgulho d'ella, não menos implacavel, porém muito mais nobre, os preconceitos, o dinheiro, quasi que a honra; mas, que importava?

Podiam entender-se e amar-se através d'isso tudo.

E Martha, empallidecida pelas commoções que lhe agitavam a sua alma de artista, com uma expressão soffredora e apaixonada nos seus bellos olhos d'um azul escuro, contava a meia voz n'aquella linguagem ineffavel as suas dôres, as suas humilhações, as suas lembranças, todas as alegrias que tivera, tudo que ella havia esperado na terra e que um dia se lhe havia desfeito nas mãos, deixando-lhe apenas uma immensa, uma desoladora, uma eterna saudade!

Ás vezes o piano chorava com uma desesperação tão inconsolavel e tão profunda, que Julião tinha desejos de erguer-se da cadeira em que estava, de protestar contra os energicos lamentos que traduziam a dôr insanavel de um destino, e de gritar:

—Aqui me tem, prompto a luctar peito a peito contra o seu infortunio, e a vencêl-o.

Mas não se atrevia!

Que diriam todos, que diria seu pae, que diria a propria Martha?