A mamã por ter de atural-o a cada instante, renunciára aos seus dôces trabalhos d'outro tempo, de que Bertha gostava tanto, e que davam ás suas mãosinhas travessas a sensação grata das sedas, das bonitas fazendas desdobradas sobre o estofo das poltronas, de todas as graciosas cousas com que podia brincar.
Andava triste a sua adorada mãesinha.
Tinha horas de melancholia morbida em que a cabeça lhe cahia no peito, como se tivesse dentro estranho pezo. E ficava-se horas e horas calada e desfallecida, com um livro aberto no regaço, ou com um trabalho apenas começado cahido aos pés, sem ouvir o papaguear festivo da sua pequena Bertha.
Quando voltava a si d'aquellas scismas doentias, parecia acordar d'um mau sonho, passava a mão pela testa, bebia agua, muita agua, e beijava a filha com um arrebatamento que lhe fazia mal.
A pequenita enfastiava-se!
Pudéra!
Fugia só para o jardim, sem que uma voz sollicita e assustada a chamasse de longe, sem que uns olhos inquietos a velassem de perto, e punha-se n'uma indistincta e muda linguagem que só as suas flores entendiam a queixar-se das tristezas vagas, que a definhavam longe do calor que d'antes a acalentava e aquecia.
As tardes do gabinete azul, os principios da noite, quando cahia do alto dos céos a penumbra indecisa e dubia do crepusculo, tudo aquillo perdera a sua graça, a sua antiga e ideal doçura!
No silencio constrangido da saleta, retiniam então os passos conquistadores do intruso, e Bertha com vontade de romper em soluços, pedia muito depressa que a fossem deitar.
Chamava-se a creada, vinha, levava-a pela mão, amuada, e ella, ao aconchegar-se nas roupinhas do seu leito, sentia ainda uma estranha impressão de desconforto e de frio. Era o beijo distrahido e formalista, que lhe haviam imprimido na testa os labios quentes, seccos e febris de sua mãe.