O romancista mais admiravel da França, aquelle que fez do romance um ramo das sciencias sociaes, fez n'um momento, que tem por força de ficar, a synthese de sua época.

Pintou, e com que potencia da verdade! os reis, e os operarios, as duquezas sentimentaes, e os artistas convulsionados pela nevrose do seu tempo, os politicos, os sabios, os pensadores, os litteratos; as peccadoras do alto mundo, e as peccadoras do mundo equivoco; os financeiros, e os luctadores ambiciosos; os que vinham perder a alma e gastar o corpo n'essa Pariz electrica e absorvente, que attrahe os genios e os monstros, e os que vinham alli conquistar a fortuna, o poder, a soberania omnipotente.

Na sua obra complexa, enorme, que ás vezes tem na distancia um não sei que de monstruoso, encontra-se viva, palpitante, com os seus vicios, com as suas paixões, com o seu talento ardente, com a sua magnetica e irresistivel seducção, uma das épocas mais caracteristicas da civilisação da França, o que significa a civilisação da Europa.

Se em Balzac encontramos as florescencias rubras do mal, nem por isso nos seduzem menos as suavidades castas da virtude.

Ao pé de Madame de Marneffe, a pequenina e graciosa féra parisiense, felina e nervosa, com caricias que mordem e furores que acariciam, ha a doce figura de Eugenia Grandet, a mais dolorosa virgem, que a imaginação moderna ainda concebeu e idealisou.

Ao pé de Luciano de Rubempré o ambicioso effeminado e morbido; de Vautrin o brutal luctador que seria um condottiere do seculo XVI e que só póde ser um forçado no seculo XIX; ao pé de Marsay o politico sagaz, que faz dos homens, das mulheres e das cousas, meros instrumentos da sua fortuna, que não tem lei nem fé, e que é capaz de assassinar com um sorriso de dandy, temos d'Arthés o pensador austero, e pobre escriptor para quem a litteratura é um magisterio e não um officio, temos Cesar Birotteau, a sublimidade burgueza, o honesto commerciante que tem palavra de duque, que é perfumista com a mesma nobreza de abnegação e de honradez, com que se é sacerdote, e que glorifica toda uma classe de que se riem os frivolos, sem saber quanta heroicidade é precisa para saber guardar immaculada em um peito de burguez, a honra de um paladino.

Dizem que o vicio pollula na obra de Balzac com uma exhuberancia de vegetação inacreditavel.

Elle não foi mais do que o analysta apaixonado da sua época.

Adorou-a pelo que ella tinha de grande, comprehendeu que lhe podia desnudar as chagas, visto que ao lado d'ellas podia mostrar tão admiraveis bellezas.

Foi implacavel na sua justiça.