De vez em quando a tela monotona d'esta nossa vida de Lisboa, unicamente bordada de pequeninos cancans politicos, litterarios e sociaes, rompe-se com a chegada, ou para melhor dizer, com a passagem de um viajante illustre.

Em geral os viajantes que por cá apparecem não chegam, passam.

É mais verdadeiro o verbo, embora lisongeie muito menos a vaidade nacional.

Este nosso modesto Jardim da Europa á beira-mar plantado, como a caridosa phantasia do poeta do D. Jayme lhe chamou, tem poucos attractivos que chamem os viajantes.

D'entre os que nos teem visitado, só um, e esse na sua qualidade de mulher tinha amplo direito para se entreter com devaneios illusorios, só um—M.me Ratazzi—descobriu em nós qualidades extraordinarias que nos vaticinam brilhante futuro, além de nos dotar de genios pouco vulgares, de obscuros Shakespeares, para quem soará brevemente a hora gloriosa da fama universal.

A propria M.me Ratazzi se offereceu bizarramente para apressar essa hora, que já ia tardando, não só pondo em prosa franceza a prosa dos nossos escriptores, como tambem encarregando-se ella propria de personalisar, n'um dos eternos theatrinhos que anda armando por toda a parte, as creações mais ou menos formosas dos ditos Shakespeares, desconhecidos.

Será bom que a gente peça a Deus d'aqui por diante nas suas orações mais fervorosas não excitar a dedicada admiração d'aquella illustre, mas indiscreta dama!

Quem lhe manda a ella andar apreguando lá por fóra nossas glorias!

Nós bastamos ao menos para nos applaudirmos mutuamente.

A que vem, porém, todas estas divagações? pergunta de certo a leitora.