Se me perguntarem qual dos dous me inspira mais sympathia, responderei que prefiro Lincoln.

Ambos teem a suprema distincção da honestidade, esta virtude moderna, que é indispensavel aos grandes homens, os quaes tinham d'antes ampla licença para serem aventureiros felizes, sem por isso deixarem de ser admiraveis e admirados.

Mas, emquanto Grant é simplesmente um homem de energia inquebrantavel, e de espirito positivo e clarissimo, Lincoln, que é tambem isso, é mais ainda do que isso, porque é uma alma de poeta.

De poeta, sim; não se riam, minhas queridas leitoras.

A poesia que se escreve é muito inferior áquella que se sente e que se pratica.

Não admira que a alma do martyr americano se colorisse na mocidade de todas as tintas opulentas da genuina poesia.

Elle conhecêra de perto a natureza grandiosa do seu paiz; ouvira, humilde, pobre, talvez inconsciente, o que diz no silencio das noites ou no acordar festivo das madrugadas a voz sonora, grave, religiosa das florestas insondaveis.

Depois, o seu primeiro livro, aquelle em que aprendeu a lêr na obscura escola da terra em que vivia, o que mais o inspirou, o que lhe deu adoraveis côres para as suas tão finas parabolas, eloquencia e uncção para advogar a causa de tantos milhões de parias, arrojo, audacia e valor para proclamar a redempção dos seus irmãos escravos—e escravos na terra onde uns poucos de homens intemeratos tinham vindo erguer o estandarte da liberdade, desconhecido na Europa—o livro, emfim, da sua mocidade foi a Biblia, o grande, o immutavel poema, o maior de todos, porque não é o poema de um homem, é o poema de um povo.

Lincoln teve, como todos os poetas do coração, o culto mais profundo pela mãe.