As saudades sem consolo, as lagrimas que chorára, as humilhações que soffrêra no meio d'aquelles perversos de faces rosadas e imberbes, que se tinham constituido em algozes da sua fraqueza e do seu desamparo!

Oh! amal-a-hia tanto e tanto, que ella havia de dar-lhe por força um bocadinho de affecto, e esse bocadinho só bastaria a torna-lo mais feliz do que um rei.

Margarida!

E ao repetir baixinho com um calafrio de prazer este nome querido, via saltar n'um raio de sol uma figurinha esbelta, graciosa, de fato muito curto e muito simples, um vestido branco, um cinto azul, um bibe de cercadura bordada, onde as amoras colhidas por elle tinham posto uma mancha vermelha, com os espessos cabellos louros em anneis soltos, e uma risada a vibrar ainda em torno d'ella como um rosario de perolas que se desfiasse dentro de um cofre de crystal.

Henrique julgou que elle endoudecia, e Joanninha com a sua voz velada, onde havia uns toques de doçura maternal, dizia-lhe:

—Mas olhe que ella é uma senhora! Já não póde ser a mesma. Não tenha uma esperança que vai converter-se-lhe em martyrio!

—A minha Margarida, repetia elle alheiado, meio louco! A minha filhinha adorada! Nunca tive uma alegria que d'ella me não viesse! Todos me tratavam mal, só ella gostava de mim e me queria sempre ao seu lado. Has de vêl-a, meu Henrique, verás se ha no mundo uma creança mais linda, mais mimosa, é uma fada, é uma perola, é a minha unica amiga n'este mundo!

VII

No dia seguinte á hora em que uma brilhante festa de familia, uma especie de baile muito intimo, reunia nas salas do marquez todos os parentes, alliados e amigos que vinham solemnisar a chegada da sua filha e herdeira, Thadeu na pequenina sala de jantar de Henrique, dobrado sobre o peitoril da janella n'uma postura de desolação e de abandono, soluçava baixinho, ao pé de Joanninha, que tentava em vão consolal-o.

Estava de casaca, coitadinho; Joanna não seria capaz de rir do desgraçado, mas como a casaca lhe ficava mal!