—Thadeu, meu querido Thadeu, meu amiguinho, tenho sido muito má, não tenho querido contar-te nada com medo de que lhe dissesses a elle alguma cousa. Eu queria ser a primeira a dizer-lh'o, queria gozar do seu sorriso, do seu olhar de anjo, de martyr beatificado, do seu olhar que me enlouqueceu para sempre... Agora digo-te, já não tenho motivo nenhum para t'o esconder.

Vou casar-me, vou ser d'elle, só d'elle... levar-te-hei comnosco... Olha que foi elle que m'o pediu... Vê como elle é bom. Eu a fallar a verdade estava tão douda que nem me lembrei de similhante cousa; mas elle fallou logo em ti, foi a sua primeira vontade! Adoro-te visto que elle é teu amigo. Has de aborrecer-me ás vezes, meu pobre Thadeu, porque nunca entendes a tempo quando deves ir-te embora, mas eu hei de educar-te. Verás! Viveremos todos tres. Nunca mais te hei de tratar mal! nunca mais me hei de rir da tua casaca. E, a proposito, tu ainda a tens, aquella malfadada casaca? Não me faças rir no dia do meu casamento, pelo amor de Deus manda fazer uma nova para esse dia. Não tenhas medo de gastar. Eu tenho muito. Sou rica, muito rica, somos todos tres muito ricos.

E douda, anhelante, no delirio da creança que venceu a sua primeira teima, na dilatação ampla de uma alma que conquistou o seu desejo supremo, Margarida expandia n'estas palavras diffusas, incoherentes, sem nexo, toda a felicidade que era hoje d'ella e que julgava eterna.

Thadeu escutava com o olhar morto e vidrado de um somnambulo.

Depois emmudecido por uma dôr aguda que lhe rasgava as carnes de todo o seu corpo como um punhal de muitas laminas, sahiu do quarto cambaleando como um ebrio.


No dia do casamento de Henrique houve dous entes que na humilde tristeza de uma pobre casa, choravam unidos todas as lagrimas da sua alma.

A um d'esses entes pungia-o uma angustia dilacerante demais para que a palavra humana a pudesse traduzir.

A outro sobresaltava-o um presentimento horrivel, como que um dobrar de finados que lhe écoava lá dentro, e ao qual não podia fechar os ouvidos.