—Quando me lembro que posso morrer sem o ouvir cantar a missa nova, parece-me que estalo de pena.
—Ó senhor prior, o meu rapaz dava ou não dava um padre de mão cheia?
Era para padre que o velho destinava o filho, sonhava todas as noutes com a sua primeira missa, via-o com as vestimentas engommadas e duras do sacerdocio, deante do altar da egreja da freguezia, no meio de nuvens de incenso, emquanto os padres cantarolavam ao som plangente e arrastado do orgão, e os sinos tangiam alegres repiques, e subiam ao ar as girandolas de foguetes impregnando de um espesso cheiro de polvora o adro enramilhetado de murtas...
Prompto nas primeiras lettras, foi o pequeno Sebastião para Braga onde se matriculou no lyceu.
N'este entrementes chegou do Brazil o irmão de Carlota. Foi á aldeia natal, procurou os parentes, e soube que todos tinham fallecido, restando-lhe tão sómente um sobrinho.
O brazileiro era solteiro, e doente; não vinha millionario, mas tinha mais do que o sufficiente para dar uma bonita carreira ao estudante.
—Olhe, mano, disse ao cunhado, deixe isso ao meu cuidado, eu me encarrego do menino. O bem que desejava fazer a meus paes, que infelizmente não encontrei, hei de revertel-o em favor de meu sobrinho.
Uma condicção exijo: não quero que o rapaz se ordene. Quero dizer, se isso fôr da sua vontade, d'elle, não me opponho, mas deixemos o tempo ao tempo. Cá a minha opinião é que elle deve estudar medicina. Os medicos ganham muito dinheiro em toda a parte, e no Brazil sobretudo, onde o mais réles tem carruagem. Está por isto? O rapaz quando acabar os estudos em Braga vae para Coimbra?
O tio Sebastião custou a descer d'aquelle sonho em que andára tantos annos embevecido. Mas por fim cedeu.
O brazileiro demorou-se alguns annos ainda em Portugal. A quebra, porém, de uma casa importante do Rio chamou-o ao Brazil, para onde partiu deixando ao sobrinho, que até então se havia portado com singular e exemplarissimo discernimento, ordem franca para receber tudo que lhe fosse preciso n'uma das casas mais acreditadas do Porto.