Fez verdadeiramente o que se chama escandalo, em todas as salas da alta roda, o casamento do filho do visconde das Lagôas.

O visconde, cujo nome primitivo era João do Moinho Novo, e que depois não sei porque artes se appellidava João Silveira, fôra para o Brazil muito moço, creio que com dezoito annos, e voltára de lá com cincoenta e archi-millionario.

Rosnava-se muito ácerca das origens d'esta nebulosa e extraordinaria fortuna.

Uns fallavam de escravatura, alguns de contrabando, todos de negocios pouco lisos e pouco licitos. No fim de contas, porém, o principal é que uma pessoa seja muito rica.

Lá o como e porquê são questões secundarias, com que se preoccupam muito os invejosos, e um pouco os escrupulosos.

O resto das pessoas, e já se vê que são muitas, essas nem para ahi voltam os olhos.

Acham este esmiuçar impertinente das vidas alheias além de enfadonho pouco aristocratico.

O visconde passava o verão na provincia do Minho, n'uma povoação perto de Vianna, onde comprára um velho palacio, cuja frontaria ennegrecida elle mandára cuidadosamente caiar.

O portão do palacio era encimado pelo brazão d'armas da familia arruinada a que pertencêra. O visconde, que não quizera conservar mais nada intacto, teve a caridosa lembrança de o conservar a elle.

Mandou-o limpar das hervas e dos musgos damninhos que se tinham introduzido entre as fisgas da pedra, e dos ninhos que a phantasia errante das andorinhas alli armára no estio.